A linha do biquíni continua a ser um “não”. Porque é que a dança tem um problema com os pêlos corporais?

Os dançarinos têm de depilar o peito, as axilas e as pernas. Mas será que a dança deveria deixar de policiar o que cresce naturalmente? Artistas de topo falam sobre os seus pêlos corporais.

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O corpo ideal de um bailarino é irrealista em muitos aspetos: mais elástico do que uma Barbie, incrivelmente magro mas super-forte, com proporções muito particulares — em ballet, os profissionais têm, por norma, cabeça pequena, pernas longas e tronco curto — e completamente depilado.

A depilação faz parte dos cuidados constantes de um bailarino profissional. E vale tanto para homens como para mulheres, escreve o jornal britânico The Guardian.

“Opto por fazer a depilação porque me dá uma sensação de prontidão”, começa por dizer o bailarino e coreógrafo Eliot Smith.

“Creio que me dá melhores contornos do corpo contra as luzes do palco”, continuou.

De acordo com a publicação, este é até um assunto bastante falado no meio da dança porque os pais perguntam o que fazer relativamente aos pêlos que aparecem debaixo de collants brancos que os filhos usam para as performances. E a solução passa pela depilação, por pintar os pêlos ou usar dois pares de collants.

Mas será que existe uma alternativa?

Em março, Leila Davis, bailarina de pole dance, foi fotografada numa campanha da Adidas com pêlos nas axilas e abdominais tonificados, o que provocou simultaneamente uma chuva de críticas e uma onda de apoio. E há alguns artistas contemporâneos — embora não sejam muitos — que ficam felizes por deixar que os seus pêlos corporais sejam vistos em palco.

“Quero que seja normalizado”, disse Jessie Roberts-Smith, do Scottish Dance Theatre.

“Não é a primeira luta que eu escolheria sobre a homogeneidade dos corpos em palco”, defendeu, por sua vez, a coreógrafa Ellie Sikorski, que vê este assunto como parte de algo muito maior.

Há algo de arcaico na dança — o corpo é policiado de certas formas. Ensinam-nos a não ter controlo sobre o nosso corpo e os pêlos são um pormenor minúsculo”, continuou.

“No ballet clássico nunca veremos uma bela princesa tutu com imensos pêlos nas axilas”, riu-se Nancy Osbaldeston, diretora do Ballet Vlaanderen em Antuérpia, que encaixa a depilação no seu horário preenchido, tendo em conta as performances.

Osbaldeston pensa, aliás, que a depilação faz tão parte do trabalho de um bailarino e que os artistas deviam poder considerá-la uma despesa de trabalho.

Begoña Cao, vencedora de um prémio de Dança Nacional, contou, em declarações ao The Guardian, que gosta de se sentir “asseada” e que nunca lhe passou pela cabeça não fazer a depilação.

“Se tiver um tutu vestido, o público que está mais longe não consegue ver nada. Mas os meus colegas (…) e aqueles fanáticos do ballet que têm os seus binóculos” conseguem, disse ainda.

No entanto, fora do ballet, há alguns pêlos a espreitar. Em linha com uma mudança cultural mais ampla, há quem mostre os seus pêlos no Instagram e até quem os tinja das mais diversas cores.

“Sinto que estamos a entrar mais num mundo onde ambos são normais”, disse Roberts-Smith, que tem 26 anos e deixa o seu pêlo como está, o que é completamente aceite pelo Scottish Dance Theatre.

“Já nem penso nisso. Tenho a sorte de estar numa companhia que abraça diferentes formas e tamanhos, com pêlo ou sem pêlo“, continuou, admitindo que, para si,  o “dever” da depilação é uma das desigualdades mais profundas entre homens e mulheres.

Apesar de os homens fazerem a barba, o que mexe com Roberts-Smith é a repugnância ligada ao pêlo das mulheres.

Sikorski, de 33 anos, deixou de depilar as pernas aos 17 porque descobriu que “isso era possível” e porque a depilação lhe irritava a pele.

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A bailarina lembra-se que, numa das primeiras peças que fez, usou um fato de banho. “Eu tinha pernas peludas, axilas peludas, mas depilei a minha linha do biquíni”, disse.

“Penso que a linha do biquíni ainda é um não”, diz Robert-Smith.

Para Sikorski, o corpo não é uma ferramenta abstrata porque as pessoas não podem, ou devem, abstrair-se dele. “É aí que a minha opinião diverge da de muitas pessoas no mundo da dança”, conclui.

Todos os bailarinos concordam, no entanto, num aspeto: a escolha pessoal de cada um deve ser respeitada. Mas a decisão de se barbear e depilar, ou de usar o cabelo liso ou natural, reflete inevitavelmente os valores das suas formas de arte, bem como a cultura mais ampla em geral.

  ZAP //

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