“Chopin do jazz” estreia-se em Portugal na quinta-feira

 

Natural de Odessa, na Ucrânia, onde nasceu em 1977, o pianista, escolhido pelo veterano Gary Burton para a sua “Next Generation” de músicos, começou a compor aos sete anos e, aos 15, entrava para a história como o mais jovem intérprete a ser aceite no conservatório da sua cidade natal, numa altura em que já completara a primeira digressão na Alemanha, como compositor.

Radicado desde os 24 anos nos Estados Unidos, onde lecciona no Berklee College of Music de Boston e faz parte do quinteto do vibrafonista Gary Burton, o pianista traz agora a Espinho os temas do seu álbum “Music for September”.

Em entrevista à Lusa, antecipa o concerto: “Será um misto de improvisações em peças clássicas de Bach, Chopin e Tchaikovsky, a que se juntam standards de jazz de Jerome Kern, Johny Green e Rodgers&Hart, e ainda as minhas composições originais”.

Para Vadim Neselovskyi, o facto de a sua mãe ser pianista “explica muita coisa”. Aos dois anos ouvia um dos trios para piano de Brahms e “não parava de chorar até a peça entrar em escala Maior”. Aos quatro tentava replicar no teclado os temas que ouvia na rádio.

Aos sete, “conseguia tocar os acordes de muitas canções pop, mas tinha uma posição de mãos terrivelmente errada”.

Improvisar é essencial

“Improvisar no piano e criar as minhas próprias histórias musicais sempre foi a coisa mais natural para mim”, revela. “Decidi tornar-me melhor pianista clássico para me tornar melhor compositor e improvisador, e [ainda aos oito anos], se não estava a improvisar, estava a tentar descobrir acordes para as minhas canções favoritas, de Beatles, Stevie Wonder, Michael Jackson”, acrescenta.

No primeiro concerto a que assistiu, pelo “incrível pianista ucraniano Yuri Kusnetsov, que atualmente dirige o Festival de Jazz de Odessa”, Neselovskyi ficou “chocado por ver que toda uma noite de música podia ser criada ali, assim, no próprio local”.

Nessa altura, porém, “ainda não sabia que Keith Jarrett existia”, confessa, referindo-se ao pianista norte-americano que também trabalhou com Gary Burton.

Em Essen e Dortmund, na Alemanha, tratou então de consolidar a sua formação clássica, “usando da oportunidade única para aprender Schubert, Beethoven e Schumann, mesmo na fonte”. Depois partiu para os Estados Unidos, como bolseiro, para fazer o mesmo “na fonte do jazz”.

Embora assinando as suas próprias composições, improvisar mantém-se essencial. “Deparo-me com peças clássicas tão fabulosas, intrincadas e harmonicamente modernas que sinto que, através da improvisação, elas podem ganhar uma nova camada de profundidade”, explica.

Pesadelo da Ucrânia

À Ucrânia regressa todos os anos para concertos e, tendo em conta a crise aí em curso, diz-se particularmente ansioso pela viagem de junho. “Quero falar com as pessoas e ver tudo com os meus próprios olhos”, declara.

“Não sei o que vai na cabeça de Vladimir Putin, mas é normal falarmos russo e termos orgulho em ser ucranianos, pelo que estamos chocados com a invasão”, afirma.

Reconhecendo que o seu país está a viver “o pior pesadelo imaginável”, Neselovskyi tem a ambição de o ver integrar a União Europeia e sente que “algo promissor, otimista, está a acontecer na Ucrânia”.

Racionalmente, contudo, verifica algo mais: “Agora consigo ver a verdadeira face da elite cultural russa. Graças a Deus, os meus heróis estão a falar abertamente contra a ocupação da Crimeia, mas há muitos músicos, atores e realizadores famosos que apoiam as políticas de Putin e essa gente está a sujeitar-se a uma vergonha que nunca será esquecida”.

Vadim-Neselovskyi / Facebook

O pianista Vadim Neselovskyi

O pianista Vadim Neselovskyi

/Lusa

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