Aldeões ajudam tropas indianas que enfrentam militares chineses nos Himalaias

Cerca de 100 residentes da vila de Chushul atravessam o território indiano de Ladakh para chegar a um pico dos Himalaias conhecido como Black Top, a uma altitude de mais de 4500 metros, levando suprimentos para o exército indiano que enfrenta militares chineses na fronteira.

Segundo noticiou no domingo o Guardian, nos próximos meses, as temperaturas cairão para – 40º Celsius e os aldeões temem que, se não ajudarem o exército indiano a assegurar as suas posições ao longo das montanhas que fazem fronteira com a China, a sua aldeia ficará sob controle chinês em breve.

“Queremos ajudar o exército indiano a garantir as suas posições”, disse Tsering, um voluntário de 28 anos. “Estamos a levar-lhes suprimentos, em várias rondas por dia, para garantir que o exército não enfrente muitos problemas”.

Chushal, uma aldeia com cerca de 150 famílias, é uma das mais próximas da disputada fronteira da Índia com a China, no leste de Ladakh. Desde maio, as tropas indianas e chinesas disputam de forma cada vez mais agressiva a fronteira mal demarcada dos Himalaias, conhecida como Linha de Controle Real (LAC).

Em junho, a situação agravou-se devido a um violento confronto, no qual 20 soldados indianos e um número desconhecido de soldados chineses foram mortos, numa batalha corpo a corpo, o pior confronto naquela fronteira durante mais de quatro décadas.

Em 29 de agosto, a apenas alguns quilómetros de Chushul, ocorreu outro confronto entre as tropas indianas e chinesas. Não houve vítimas, mas forma disparados tiros, algo que não acontecia no local há 45 anos.

Na semana passada, os ministros da Defesa da Índia e da China reuniram-se em Moscovo, na Rússia, e comprometeram-se a acabar com o conflito. Seguiram-se cinco negociações militares de alto nível, sem sucesso, com ambos os lados a insistir que o outro está a violar território soberano.

Mas, de acordo com os moradores, há poucas evidências de resolução, com o número de militares indianos a aumentar ao longo da fronteira. Um comboio continua a levar suprimentos e munições e cerca de 100 escavadores foram deslocados para o local a fim de construir estradas e edifícios, garantindo a posição da Índia ao longo da fronteira.

“É muito claro que ambos os lados estão a planear ficar na sua posição durante o inverno, parecem estar a antecipar que não haverá resultado diplomático”, disse Manoj Joshi, um especialista em segurança da Observer Research Foundation.

“A realidade é que a China não quer resolver o conflito porque é uma maneira conveniente de manter a Índia instável e enfraquecida, envolvendo-a numa operação militar cara ao longo da fronteira dos Himalaias, que está muito além das suas possibilidades”, referiu.

Esta semana, os aldeões de Chushul continuaram os seus esforços para levar suprimentos para as tropas em Black Top, para a qual não há estrada de acesso. “A área onde ocorreu o confronto recente ainda não tem estrada, muito menos infraestruturas”, disse Tsering. “Durante quanto tempo o exército manterá os suprimentos assim?”, questionou.

“Os lugares onde a China enfrentou o exército indiano não têm condições de vida adequadas. O exército está acondicionado em tendas. Não sei como vão construir uma infraestrutura boa o suficiente para viver, quando não há estradas”, indicou Konchak Tsepel, outro morador.

Especialistas afirmam que a Índia não estava preparada para uma batalha prolongada ao longo da sua fronteira. O país tem agora poucas semanas para garantir que as quatro divisões atualmente em Ladakh – cerca de 40 mil soldados – estejam preparadas para manter as suas posições contra a China durante o inverno.

Manter as dezenas de milhares de soldados no deserto de alta altitude é uma tarefa complexa e cara, apontou o Guardian. A região não tem canais de comunicação adequados e a eletricidade ainda não chegou a muitas aldeias. Enquanto isso, o orçamento de defesa da China é três vezes maior que o da Índia.

Tashi Chhepal, de 60 anos, capitão reformado do exército indiano, indicou que, durante o inverno, algumas aldeias perdiam o contacto “com o mundo exterior” por “até cinco meses”. “Tudo congelava e armazenávamos suprimentos para o inverno inteiro. Nesses meses, comíamos enlatados. A conetividade é ruim. Não mudou muito nos últimos anos”.

Pravin Sawhney, um ex-oficial do exército indiano, disse que a Índia foi apanhada de “surpresa” com as recentes confrontos com a China ao longo da fronteira, estando agora a recuar. “A China é muito superior”, sublinhou. “Eles têm Internet de fibra óptica no limite do espaço de batalha”, concluiu.

Também Amrit Pal Singh, major-general do exército indiano e ex-chefe de logística operacional da região de Leh, disse que, com o aproximar do inverno, o transporte de tropas e suprimentos para a área seria um desafio diferente de qualquer outro para os militares indianos. “Este é o campo de batalha mais isolado do mundo”, afirmou.

ZAP //

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  1. A China esperou que a India apanhasse com COVID em força para agora atacar. Bem jogado, mas hão de receber a resposta merecida. E quem sabe se os indianos até conseguirão libertar o Tibete…

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