Aberto inquérito a polícias que agrediram homem no Bairro Alto

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Um homem foi agredido pela polícia no Bairro Alto, com um bastão, e não ofereceu resistência, de acordo com um vídeo partilhado nas redes sociais.

Este sábado começou a circular um vídeo nas redes sociais com dois polícias a atacarem um homem à bastonada no Bairro Alto, em Lisboa. Os utilizadores criticaram e denunciaram a violência dos agentes da PSP, que serão agora alvo de um inquérito da polícia, segundo o Público.

O Ministério da Administração Interna também já solicitou a abertura de uma investigação à Inspeção Geral da Administração Interna (IGAI).

A Direção Nacional da PSP já foi informada que deverá fornecer à IGAI “todos os elementos do processo que tenha instaurado” para a abertura de um processo de inquérito de “apuramento dos factos“, de acordo com o comunicado divulgado pelo gabinete de imprensa do ministro José Luís Carneiro.

Os dois polícias estavam aos berros com o homem, a ordenar que este se deitasse no chão e que se virasse, enquanto lhe davam bastonadas, resistência visível por parte do agredido, que tenta apenas proteger-se dos golpes.

“No chão, cabrão!”, grita um dos agentes, enquanto acerta com o bastão no homem, tanto nas pernas como nos braços. O vídeo termina com um dos agentes a imobilizar o homem, já deitado no chão e sem oferecer resistência, colocando-lhe um joelho por cima do pescoço. “Ele não está a fazer nada, para quê bater-lhe?“, questiona um dos moradores que filmou o sucedido.

O Comando Metropolitano de Lisboa da PSP já divulgou um comunicado de imprensa sobre a situação, no qual descrevia uma versão diferente da registada no vídeo, que remetia para os momentos anteriores.

“No âmbito do patrulhamento na zona do Bairro Alto, em Lisboa, pelas 19h40, do dia 13 de agosto de 2022, uma patrulha da PSP foi informada por uma pessoa que ali circulava que, na Travessa da Boa Hora, 9, se encontrava um indivíduo com um comportamento agressivo para com as pessoas que por ali passavam, ameaçando-as e causando-lhes receio”, lê-se no comunicado.

“Tendo em conta esta informação, os polícias deslocaram-se ao local e abordaram o cidadão suspeito para esclarecimento dos factos, tendo este [apresentado] uma atitude agressiva para com os polícias e negado identificar-se”, acrescenta a PSP.

“Esgotados os pressupostos legais para proceder à sua identificação, foi o mesmo informado que iria ser conduzido à esquadra para se proceder às diligências necessárias. A partir deste momento, o indivíduo terá ficado mais agressivo, negando-se a acompanhar os polícias e terá tentado escapar e impedir a ação policial, utilizando ferros com intenção de os agredir. Os polícias recorreram ao uso da força, incluindo através de bastão policial e já manietado conduziram o suspeito à esquadra, onde foi identificado, tendo saído daquela subunidade pelas 22h”, lê-se ainda.

“Para o esclarecimento cabal do ocorrido vai ser instaurado um processo de inquérito”, sublinha também a PSP.

Em entrevista ao Público, uma testemunha que estava na rua no decorrer da situação, e vizinho do homem agredido, considera que a polícia o tratou “como se ele fosse um animal”. Ainda para mais, “sem motivo algum”, realça Frank Alexandre.

Os polícias, que iam dentro de um carro, devem ter reparado nos “ferros” que o homem segurava na mão, enquanto passava “bem perto” de uma família de turistas, com um carrinho de criança, segundo a testemunha.

O senhor é conhecido na zona por ter a casa cheia deste metal, que vende para ganhar algum dinheiro, bem como por “mexer com o povo“, conta a testemunha.

“Ele não provocou a criança nem nada”, acrescenta. No entanto, a polícia saiu a correr do carro a berrar para que ele se deitasse no chão e largasse os ferros.

Depois, é “o que se vê no vídeo”. A polícia a “dar-lhe pontapés e a bater-lhe“, apesar de ele não mostrar resistência, acabando por puxá-lo até ao carro.

“Voltou [a casa] no mesmo dia”, sublinha Frank Alexandre, acrescentando que o homem lhe disse que tinha sido agredido de novo na esquadra da polícia. ​

“A situação está reportada e o que temos a dizer é o que está no comunicado”, garante a PSP, quando questionada sobre esta nova acusação de agressões.

De acordo com José Falcão, dirigente do SOS Racismo, não é possível saber se a agressão foi motivada por motivos racistas, apenas através do vídeo.

“A polícia é sempre o costume. O que diz pode ser que seja verdade, pode ser que não. Eu já senti na pele as aldrabices que a polícia conta sobre as agressões”, admite. Agora, é preciso esperar pelo inquérito da IGAI que, olhando para muitos casos de violência policial racista do passado, não tem conduzido às punições devidas, acusa José Falcão.

Apesar das “especulações” em relação ao caso, o dirigente deixa uma questão no ar: “Eu gostava de saber se não fosse um negro, se a polícia agiria daquela maneira. E sabemos que não”.

  ZAP //

1 Comment

  1. O vídeo está truncado. Noutra versão, um ou dois segundos antes é visível que o homem “que não está fazendo nada” tem um ferro na mão. Para quê não sei…
    No vídeo o ferro continua visível, mas no chão, depois do homem o ter deixado cair, e não se percebe que, desconfio eu, provavelmente estava a ser usado como arma.

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