“Ontem estava fantástico, hoje arrasta os pés”. Ex-secretária falou da saúde de Salgado após uma vida de trabalho

José Sena Goulão / Lusa

A saúde de Ricardo Salgado está a degradar-se e sente-se, sobretudo, ao nível da memória, contou a secretária do ex-banqueiro, Tereza Araújo, em tribunal no âmbito do julgamento do antigo presidente do Grupo Espírito Santo (GES).

Ouvida como testemunha na sexta sessão do julgamento de Ricardo Salgado, num processo conexo e separado da Operação Marquês, a antiga funcionária do GES, que trabalhou durante cerca de 30 anos como secretária de Salgado, e que continua a dar apoio de secretariado apesar de já estar reformada, admitiu haver um contraste evidente entre o passado e a atualidade do ex-banqueiro.

Ontem estava fantástico, hoje perguntou-me cinco vezes a mesma coisa. Varia muito os dias em que ele está, mas não tem nada a ver com o Ricardo Salgado que conheci toda a vida. Hoje arrasta os pés, esquece-se de coisas”, disse Tereza Araújo ao colectivo de juízes.

“É uma pessoa que se sente que está com uma degradação que vai avançando e nos números nota-se imenso”, acrescentou, realçando que o antigo presidente do GES, de 77 anos, “vivia para trabalhar”.

O testemunho de Tereza Araújo surge no dia seguinte à apresentação de um requerimento da defesa de Ricardo Salgado, onde os advogados argumentaram a nulidade do despacho que tinha recusado a realização de uma perícia médico-neurológica ao arguido.

No documento, os advogados salientam que esta perícia é “um direito fundamental do arguido que se impõe ao tribunal”, notando que o seu resultado pode vincular o tribunal a aplicar a suspensão da execução de uma hipotética pena de prisão, ao abrigo do artigo 106.º do Código Penal.

“Sei de muitas decisões que foram tomadas contra ele”

Na sessão do julgamento desta terça-feira, a ex-secretária de 71 anos contestou que a gestão do grupo passasse exclusivamente por Ricardo Salgado, ao notar que o presidente do GES “tinha tanto trabalho que era impossível dedicar-se às outras áreas” e que se concentrava somente na área financeira da instituição.

“Fico espantada que, com o trabalho que ele tinha no banco, ainda poderia estar a tomar conta de todas as outras áreas do grupo. E que era um grupo enorme”, frisou Teresa Araújo.

“Sei de muitas decisões que foram tomadas contra ele e ele não tinha outra hipótese. Eu recebia atas das reuniões, estive 30 anos a trabalhar com a família Espírito Santo e também ouvia comentários, tanto de Ricardo Salgado como de outros”, adiantou a testemunha.

A mesma linha de raciocínio foi seguida no depoimento seguinte por Pedro Brito e Cunha, antigo administrador da companhia de seguros Tranquilidade, que era parte integrante do GES, com a testemunha a notar que os membros do conselho superior do grupo – a quem reportava – “trabalhavam muito colegialmente” entre si.

O julgamento de Ricardo Salgado será retomado a 22 de outubro, com as audições das últimas testemunhas: Jean-Luc Schneider, Alain Rukavina e Ricardo Gaspar Rosado de Carvalho. Para esse mesmo dia estão já agendadas as alegações finais.

Ricardo Salgado responde neste julgamento por três crimes de abuso de confiança, devido a transferências de mais de 10 milhões de euros no âmbito da Operação Marquês, do qual este processo foi separado.

ZAP // Lusa

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3 COMENTÁRIOS

  1. Pois é muito estranho que logo nesta altura é que a memória está a detiorar-se!
    Uma vida de trabalho árduo ou uma vida de roubo?

    • Pois saiba que “roubar” dá trabalho !….. não falo por mim claro !…. pois passo como muitos a ser vitima do assalto a minha carteira por parte dos nossos sucessivos Governantes que en vez de Governar, Governam-se !

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