Presidente da República condecorou Mário Cláudio, Fernando Namora e Zeferino Coelho

José Sena Goulão / Lusa

Os escritores Mário Cláudio e Fernando Namora, este a título póstumo, e o editor Zeferino Coelho foram esta quinta-feira distinguidos pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, em Lisboa.

As condecorações foram atribuídas no começo da quarta edição da Festa do Livro em Belém, uma iniciativa promovida por Marcelo Rebelo de Sousa para promover o livro e a leitura, noticiou a agência Lusa na quinta-feira.

Mário Cláudio recebeu a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique e Zeferino Coelho a Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique. A Grã-Cruz da Ordem da Liberdade, por sua vez, atribuída a título póstumo a Fernando Namora, foi entregue à filha do escritor, Margarida Namora.

Marcelo Rebelo de Sousa distinguiu também o ensaísta e crítico literário Eugénio Lisboa, autor de prosa e poesia, especialista na obra de José Régio e antigo presidente da Comissão Nacional da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO, em inglês), como comendador da Ordem Militar de Sant’Iago de Espada, e o antigo presidente da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL) João Amaral.

Aos jornalistas, Marcelo Rebelo de Sousa afirmou que estas cinco condecorações pretendem “homenagear o livro e a leitura”.

Numa volta pela Festa do Livro, o Presidente comprou mais de duas dezenas de livros em praticamente todas as bancas de editoras espalhadas pelo jardim, entre os quais Os Maias, de Eça de Queiroz, e O Príncipe, de Maquiavel, pedindo fatura com contribuinte.

No caminho, recebeu de oferta uma edição do almanaque Borda d’Água, um generoso abraço da escritora Alice Vieira, que efusivamente chamou de “menina Alice”, pedidos de autógrafos de várias crianças e muitas solicitações para fotografias.

Bibliófilo confesso, dizendo que já doou 200 mil livros, o chefe de Estado demorou-se numa banca alfarrabista a folhear edições antigas de obras de Sophia de Mello Breyner Andresen, autora de quem se assinala este ano o centenário do nascimento.

Marcelo Rebelo de Sousa prometeu ir todos os dias a esta festa literária, que termina no domingo com um concerto dos Xutos & Pontapés, de homenagem ao guitarrista Zé Pedro.

Mário Cláudio é o pseudónimo literário de Rui Manuel Pinto Barbot Costa, nascido há 77 anos, no Porto, licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra, onde se licenciou também como bibliotecário-arquivista, e que detém o ‘Master of Arts’ em Biblioteconomia e Ciências Documentais pela Universidade de Londres.

A sua estreia literária deu-se em 1969, como poeta, com a obra Ciclo de Cypris. Ao longo da carreira tem sido distinguido com diversos galardões, entre os quais o Grande Prémio de Romance e Novela da APE pela obra Amadeo, primeiro de um conjunto a que intitulou, posteriormente, Trilogia da Mão, o Prémio Pessoa, o Prémio Clube Literário do Porto e o Prémio Vergílio Ferreira, da Universidade de Évora.

Da sua bibliografia fazem parte títulos como Guilhermina (1986), A Quinta das Virtudes (1991), Tocata para Dois Clarins (1992), Peregrinação de Barnabé das Índias (1998), Ursamaior (2000) e Triunfo do Amor Português (2004).

Na poesia conta ainda, entre outros, com títulos como Terra Sigillata (1982) e Dois Equinócios (1996).

Na área de ensaio publicou Para o Estudo do Alfabetismo e da Relutância à Leitura em Portugal (1979), Júlio Pomar – Um Álbum de Bichos (2007) e Fotobiografia de António Nobre (2006), entre outros títulos.

Para teatro editou Noites de Anto (1988), A Ilha de Oriente (1989), Henriqueta Emília da Conceição (1997) e O Estranho Caso do Trapezista Azul (1998). A Bruxa, o Poeta e o Anjo (1996) é um dos seus títulos na ficção infantojuvenil.

Zeferino Coelho assinala este ano 50 anos de carreira. O histórico editor da Caminho, para onde entrou em 1977, começou a carreira logo após terminar o curso de Filosofia, na Universidade do Porto.

Em 1979, Zeferino Coelho tornou-se no primeiro editor de José Saramago, na Caminho, publicando uma peça de teatro, mas foi no ano seguinte, com Levantado do Chão, que teve a certeza de que tinha em mãos “algo em grande”, como recordou em declarações à agência Lusa no ano passado.

Para o editor e autor, este foi o ponto de partida para uma parceria editorial de quatro décadas e uma amizade que perdurou até ao fim da vida de José Saramago, que morreu em 2010. Ao longo da carreira, editou também, entre outros, Sophia de Mello Breyner Andresen, Mário de Carvalho, Mia Couto, Luandino Vieira e Germano Almeida.

Este ano, assinala-se o centenário do nascimento de Fernando Namora que, além de escritor, era médico e foi também ilustrador. Formado em Medicina pela Universidade de Coimbra, Fernando Gonçalves Namora cedo abandonou a prática médica, tendo trabalhado por pouco tempo numa empresa de produtos farmacêuticos.

Tornou-se escritor ainda muito jovem, pelo menos desde os 16 anos, e versou todos os géneros literários, desde o ensaio ao conto, passando pela poesia, pelo romance, pela crónica e pelo registo memorialista, tendo publicado centenas de títulos, muitos reeditados e traduzidos em diversos idiomas.

Autor de um romance autobiográfico da geração coimbrã a que pertenceu, Fogo na Noite Escura, em 1943, Fernando Namora publicou em 1938 o primeiro livro, As Sete Partidas do Mundo, que lhe valeu o Prémio Almeida Garrett, no mesmo ano em que se lhe atribuiu o Prémio António Augusto Gonçalves, de artes plásticas.

Seguiram-se títulos como Casa da Malta, Minas de San Francisco, A Noite e a Madrugada, O Trigo e o Joio, O Homem Disfarçado, Cidade Solitária, Domingo à Tarde e O Rio Triste.

Algumas das suas obras mais marcantes foram adaptadas a cinema e a televisão, nas décadas de 1960 e de 1980, como Retalhos da Vida de Um Médico e Domingo à Tarde.

Esta foi a terceira condecoração pela Presidência da República a Fernando Namora, depois de ter recebido o Grande Oficialato da Ordem de Santiago de Espada, atribuído por Ramalho Eanes, e a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique, por Mário Soares.

TP, ZAP //

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