Mistério com 25 anos. Descoberta causa das mortes em massa de águias-de-cabeça-branca

Uma misteriosa doença neurodegenerativa tem matado águias e outros animais em lagos nos Estados Unidos. Depois de 25 anos, os investigadores finalmente descobriram a sua causa.

A doença, conhecida como mielinopatia vacuolar (VM), foi descoberta pela primeira vez em 1994, quando foi encontrado um grande número de carcaças de águias perto do Lago DeGray, no Arkansas. O VM ataca o cérebro de animais infetados, causando problemas nas funções motoras e, eventualmente, levando a uma “morte horrível”, segundo os cientistas.

“Quando os pássaros estão realmente doentes, parecem muito bêbados, tropeçam e caem”, disse Susan Wilde, cientista aquática da Universidade da Geórgia, em declarações ao LiveScience. “Mas fica ainda pior: ficam paralisados, cegos e podem ter tremores e convulsões antes de eventualmente sucumbir à doença.”

Inicialmente, os cientistas não faziam ideia de como as águias tinham contraído a doença. Eventualmente, identificaram uma planta invasora e, mais tarde, uma espécie particular de cianobactéria que parecia ser a responsável, mas os mecanismos exatos por trás da VM continuaram a ser um mistério.

Agora, um novo estudo revelou o culpado: uma neurotoxina chamada aetoctonotoxina que é produzida sob certas circunstâncias pelas cianobactérias que vivem nas plantas invasoras.

“Uma toxina produzida por cianobactérias que colonizam uma planta altamente invasiva, que tem a capacidade de afetar diversos filos de animais, não deve ser subestimada no seu potencial impacto no nosso meio ambiente”, disse o autor principal Steffen Breinlinger, estudante de doutoramento na Universidade Martin Luther Halle-Wittenberg, na Alemanha.

O que é a mielinopatia vacuolar?

Desde que foi descoberta pela primeira vez em 1994 a VM espalhou-se rapidamente por lagos nos Estados Unidos. “Encontrámo-la em nove estados, da Virgínia ao Texas”, disse Wilde. “Mas não acho que entendamos em quantos lugares pode estar a ocorrer.”

Uma grande variedade de espécies lacustres também parece ser afetada pela doença – peixes, sapos, caracóis, salamandras, tartarugas e cobras, bem como pássaros mais pequenos, como galeirões, corujas e aves aquáticas.

No entanto, as águias americanas (Haliaeetus leucocephalus) são uma das espécies mais afetadas porque se alimentam de todos esses outros animais infetados. “Sabemos que pelo menos 130 águias morreram com teste positivo para VM”, disse Wilde. “Mas a taxa de recuperação de cadáveres é provavelmente em torno de 10% ou 12%, por isso é provavelmente pelo menos 10 vezes esse número.”

Os investigadores testam para VM realizando uma necropsia imediatamente após a morte do animal. Lesões e danos cerebrais são as únicas evidências físicas da doença e só podem ser devidamente identificados durante um curto período de tempo após a morte, o que torna este rastreamento ainda mais difícil.

Os cientistas descobriram que o VM só foi encontrada em lagos onde uma espécie de planta invasora, Hydrilla verticillata, também foi encontrada. No entanto, os cientistas perceberam que nem todos os lagos onde Hydrilla cresce estavam ligados à VM.

Em 2015, um novo estudo de Wilde identificou uma espécie de cianobactéria (Aetokthonos hydrillicola) que foi encontrada em Hydrilla em lagos onde a VM estava a infetar animais. Contudo, a causa exata da doença ainda permanecia um mistério porque a equipa não conseguia explicar como a bactéria estava a causar a VM.

Agora, Wilde enviou amostras das cianobactérias para Breinlinger e outros investigadores na Alemanha, que tentaram cultivar culturas da bactéria e ver que toxinas produziam.

A equipa descobriu que as cianobactérias cultivadas em culturas regulares não produziam nenhuma toxina e pareciam refutar a teoria de Wilde de que eram responsáveis ​​pela VM. Contudo, quando cultivadas em culturas que incluíam brometo, as plantas produziram uma toxina que os cientistas agora acreditam ser a causa da VM. A toxina é chamada de etoctonotoxina, que se traduz como “veneno que mata a águia”.

Ainda não se sabe exatamente por que as cianobactérias produzem a toxina e por que o fazem apenas na presença de brometo – que ocorre naturalmente em lagos em pequenas doses, mas também é introduzido por humanos na forma de herbicidas e pelo escoamento químico das centrais elétricas.

É altamente improvável que a VM seja erradicada dos lagos dos Estados Unidos. Porém, agora, os cientistas podem descobrir formas de controlar a propagação e gerir a doença. “Se controlarmos o brometo nos reservatórios, Hydrilla não se acumulará nele e, em última análise, a Aetokthonos perderá a sua arma”, disse Breinlinger.

Os cientistas planeia fazer mais estudos como a nova toxina afeta pequenos mamíferos, como ratos, para ver o quão perigoso pode ser em humanos.

Este novo estudo foi publicado em março na revista Science.

Maria Campos Maria Campos, ZAP //

PARTILHAR

RESPONDER

O "fantasma" de Sócrates pairou no aniversário do PS, mas ninguém o mencionou

O secretário-geral do PS, António Costa, homenageou esta segunda-feira, dia do 48.º aniversário do partido, os primeiros 115 autarcas socialistas eleitos em 1976 e afirmou que os militantes do partido são mais importantes do que …

"Sem paralelo em qualquer outra experiência externa". Marcelo elogia reuniões no Infarmed

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, considera que as reuniões do Infarmed, que juntam especialistas, líderes políticos e parceiros sociais, são realizadas “num quadro político e institucional sem paralelo em qualquer outra experiência …

Fotografia da NASA demonstra Teoria da Relatividade Geral de Einstein

O aglomerado Abell 2813 tem tanta massa que atua como uma lente gravitacional, fazendo com que a luz de galáxias distantes se curve à sua volta. A lente gravitacional acontece quando a massa de um objeto …

Astrónomos descobrem uma super-Terra perto de uma estrela gelada

Uma equipa de investigadores descobriu uma super-Terra a orbitar GJ 740, uma estrela anã fria localizada a cerca de 36 anos-luz do nosso planeta. Nos últimos anos, os cientistas têm levado a cabo uma busca exaustiva …

Já pode "adotar" um pedaço de Notre-Dame para ajudar na sua reconstrução

Uma organização está a dar a oportunidade de o público ajudar na reconstrução de artefactos específicos da catedral de Notre-Dame, em França, que foi parcialmente destruída por um incêndio em 2019. De acordo com a cadeia …

Proporção divina identificada na gerbera

Descobrir como se formam os padrões distintos e omnipresentes das cabeças das flores tem intrigado os cientistas há séculos. Quando se pede a alguém que desenhe um girassol, quase todas as pessoas desenham um grande círculo …

Audi apresenta o novo Q4 e-tron que traz uma autonomia até 520 km

Ainda antes do verão, a Audi vai colocar no mercado o seu primeiro SUV elétrico concebido de raiz e não adaptado a partir de uma plataforma concebida para motores a combustão. O Q4 e-tron destaca-se pela …

Vanuatu em alerta depois de um corpo com covid-19 ter dado à costa

Vanuatu proibiu viagens de e para a sua principal ilha três dias depois de ter dado à costa um corpo de um pescador filipino, que testou positivo à covid-19. De acordo com a Radio New Zealand, …

Cientistas russos querem criar a primeira vacina comestível contra a covid-19

O Instituto de Medicina Experimental de São Petersburgo, na Rússia, anunciou o seu plano de concluir dentro de um ano os testes pré-clínicos da primeira vacina comestível do mundo contra o novo coronavírus. Em entrevista à …

Em plena crise política, o país mais pobre das Américas ainda não recebeu nenhuma vacina

Numa altura em que a maior parte dos países já têm o processo de vacinação a decorrer, o governo do Haiti ainda não garantiu uma única dose da vacina contra o coronavírus. O país mais pobre …