Médicos Sem Fronteiras é “institucionalmente racista”, acusam atuais e ex-colaboradores

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nesimo / Flickr

Médicos Sem Fronteiras (MSF)

Uma declaração assinada por mil atuais e ex-funcionários revela que a Organização Não Governamental (ONG) Médicos Sem Fronteiras (MSF) é “institucionalmente racista” e reforça o colonialismo e a supremacia branca no trabalho humanitário que pratica.

Na declaração, os signatários acusam a MSF de não reconhecer a extensão do racismo perpetuado nas suas políticas, nas práticas de contratação, na cultura no local de trabalho e nos programas de “desumanização”, administrados por uma força de trabalho de “minoria branca privilegiada”, noticiou o Guardian.

Dirigida à gerência e aos colegas, pede-se na carta uma investigação independente sobre o racismo dentro da organização e uma reforma urgente para desmantelar “décadas de poder e paternalismo”.

Entre os signatários constam o presidente do conselho de MSF do Reino Unido, Javid Abdelmoneim, a presidente do conselho no sul da África, Agnes Musonda, e o diretor da MSF Alemanha, Florian Westphal.

O presidente internacional de MSF, Christos Christou, recebeu a declaração como um “catalisador” para agir mais rapidamente, através de uma série de mudanças já planeadas.

A declaração surge depois de um debate interno sobre o racismo e sobre o movimento ‘Black Lives Matter’ (‘Vidas Negras Importam’). Alguns funcionários ficaram desagradados com uma declaração recente da MSF Itália, na qual era sugerido que a ONG não devia usar o termo “racismo” e que “todos, começando pela MSF”, deviam usar o lema ‘all lives matter’ (‘todas as vidas importam’, em tradução livre).

A MSF, uma das maiores organizações humanitárias do mundo, que recebeu o Prémio Nobel da Paz em 1999, fornece serviços médicos de emergência a pessoas careciadas em países pobres e em zonas de conflito.

Em 2019, empregou 65 mil pessoas, cerca de 90% dos quais localmente. No entanto, a maioria das suas operações é dirigida por gestores europeus, em cinco centros operacionais situados na Europa Ocidental, com apenas um – inaugurado no ano passado no Senegal -, localizado no hemisfério sul.

Shaista Aziz, ex-colaboradora de MSF e co-fundadora da ONG Safe Space, afirmou: “Esse momento de acerto de contas está muito atrasado. O trabalho real que precisa ser feito passa por desmantelar as estruturas de poder que estão a causar danos e esse é um trabalho que poucas pessoas querem realmente fazer”.

A mudança, continuou Aziz, “exige uma liderança corajosa e ousada e exige muitas pessoas brancas capazes de fazer o bem, com poder para sair do caminho”.

Andrew Quilty / Oculi / MSF

Paciente tratado no Centro de Trauma de Kunduz dos Médicos Sem Fronteiras

Padma Priya, ex-gestor de media da MSF em Deli, na Índia, que abandonou a ONG em 2018, afirmou: o racismo casual era “uma realidade para pessoas como eu todos os dias”.

Os testemunhos pessoais dos signatários apontaram para uma extensão do problema. “Tentar apoiar um membro de uma equipa nacional a candidatar-se a um emprego numa equipa internacional é o processo mais tedioso, injusto e comovente que eu já enfrentei”, descreveu um dos funcionários.

Há uma mentalidade “quase sufocante” do ‘salvador branco’, disse outro, enquanto alguns se queixaram de políticas de recrutamento que “pressionavam os funcionários com 10 ou 20 anos de experiência a serem supervisionados por recém-licenciados”.

Christou disse: “Vejo isto como uma oportunidade que surgiu a partir de por um evento trágico, que provocou raiva e discussão dentro do nosso movimento”. “A nossa prioridade é aproximar a tomada de decisão dos locais onde estão as necessidades e envolver os pacientes e a comunidade na elaboração de estratégias de intervenção. Encolher o poder de decisão da Europa e redistribuí-lo no resto do mundo”, acrescentou.

Muitos dos pontos de ação estabelecidos pela ONG foram acordados numa reunião da equipa, que ocorreu uma semana antes da divulgação da carta assinado pelos funcionários. Christou reconheceu que uma revisão de 2017 para combater os salários “injustos e discriminatórios” não foi suficiente. “Estamos agora a rever isso”, contou.

Na última década, a percentagem de coordenadores internacionais de programas da MSF no hemisfério sul aumentou de 24% para 46%. No entanto, “os cargos de gestão sénior ainda são atribuídos” a pessoas do hemisfério norte, sendo esse outros dos fatores “que estamos a tentar superar”, acrescentou o presidente internacional da MSF, indicando que já havia começado uma revisão dos salários.

Para Avril Benoît, diretor executivo da MSF nos Estados Unidos, “grande parte do foco atual foi desencadeado pela brutalidade de um agente da polícia com o joelho no pescoço de George Floyd. Muitos de nós, brancos, estamos a compreender que a violência policial é apenas o ápice de uma pirâmide de opressão”.

“Quando nos deparamos com isso pela primeira vez, dizemos: ‘Esse não sou eu, sou humanitário, somos todas pessoas tão boas’. Mas se olharmos para uma imagem daqueles que ocupam os cargos mais altos a nível executivo, temos uma resposta. As pessoas boas que podemos ser e as políticas que adotamos não são suficientes”, frisou.

Claudia Lodesani, presidente da MSF Itália, pediu desculpas pelos transtornos causados ​​pela declaração do conselho italiano. “Desde então, escrevemos uma nova carta para esclarecer a nossa intenção e pedir desculpa pelos danos causados ​​a colegas em todo o mundo, reafirmando que apoiamos totalmente o movimento ‘Black Lives Matter’ e que, como todo a MSF, condenamos o racismo e a discriminação”.

Em 2019, a MSF recebeu sete queixas formais de discriminação racial, das quais menos de cinco foram confirmadas após investigação. Reconheceu, contudo, que as queixas de abuso e problemas de comportamento, especialmente de funcionários contratados localmente, pacientes e prestadores de serviços, foram subnotificados pela organização.

  ZAP //

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