Cientistas sugerem que o dedo grande foi a última parte do pé a desenvolver-se

Cientistas norte-americanos descobriram recentemente que o nosso dedo grande foi a última parte do pé a evoluir até à forma como o conhecemos hoje.

Quando os nossos ancestrais começaram a caminhar, ainda passavam a maior parte do tempo em cima das árvores, utilizando os pés para se fixar nos galhos. Também andavam sobre o solo de uma forma muito diferente de como o fazemos hoje mas, mesmo assim, conseguiam locomover-se com bastante agilidade.

Foi a evolução do dedo grande – que fez com que o pé se apoiasse melhor e desse impulso com mais facilidade – que permitiu uma locomoção mais eficiente, mostra um estudo da universidade norte-americana de Marquette publicado, na semana passada, na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS).



Os cientistas responsáveis pela pesquisa estudaram imagens em 3D de ossos dos dedos dos pés de fósseis de humanos primitivos e de primatas atuais, tal como chimpanzés. De seguida, compararam essa informação com ossos humanos atuais e com a árvore evolutiva dos primatas.

A principal descoberta é que a forma atual dos ossos do dedo grande – batizado de hálux na terminologia médica – evoluiu mais tarde do que os restantes ossos investigados.

Em declarações à BBC, o autor principal deste estudo, Peter Fernandez, diz que esta é uma constatação importante porque a “nossa habilidade de caminhar e correr como bípedes é uma característica crucial, que permitiu aos seres humanos chegar ao que são hoje em dia”.

Segundo o cientista, para que tudo pudesse funcionar em conjunto, os ossos do pé precisaram de evoluir para acomodar as exigências particulares da biomecânica do bipedismo.

“Do ponto de vista mecânico, os dedos grandes dos pés são muito importantes para caminhar. No nosso estudo demonstramos que chegaram à sua forma moderna muito depois do que os outros dedos”, explica.

Dedo paralelo

Mas porque é que este dedo evoluiu mais tarde? “Talvez tenha o sido o que exigiu mudanças mais difíceis”, declara Fernandez, acrescentando que o modo de vida dos nossos antepassados também pode ter retardado essa evolução uma vez que, como ainda passavam muito tempo nas árvores, era-lhes útil para a função de agarrar, acrescenta.

“Os seres humanos têm mais estabilidade ao caminhar devido à orientação do hálux, paralela aos outros dedos. Mas, como resultado disso, os nossos pés também não têm tanta destreza como os de um macaco”, explica.

A razão pela qual em certo momento os nossos ancestrais se aventuraram a ficar de pé e a caminhar é que ainda permanece um mistério, embora já tenham surgido várias hipóteses.

Uma teoria é a de que caminhar permitiu aos seres humanos primitivos libertar as mãos para carregar e usar ferramentas. Outra hipótese é a de que as mudanças climáticas levaram à redução das florestas, tornando-se imperativo procurar alimento noutros lugares. Por fim, a terceira é a de que os nossos ancestrais já usavam os seus membros superiores para se segurar nos galhos, usando os pés para galhos mais finos.

Este e outros estudos indicam que os seres humanos primitivos começaram a caminhar de pé na época do Ardipithecus ramidus, uma espécie de hominídeo que viveu há 4,4 milhões de anos. Mas acredita-se que a transição à forma como andamos agora tenha acontecido muito depois, no grupo onde se incluem os humanos modernos (Homo).

O novo estudo, juntamente com outras pesquisas, confirma que os primeiros humanos a caminhar, os hominídeos, ainda usavam os pés para agarrar objetos.

Reações a este estudo

William Harcourt-Smith, professor do departamento de Antropolgia da Universidade da Cidade de Nova Iorque, nos EUA, considera que “os autores sugerem que um dos primeiros hominídeos (Ardipithecus) já se estava a adaptar numa direção que se distanciava da morfologia do ancestral comum mais antigo dos chimpanzés e dos seres humanos, mas não ia ainda na direção dos seres humanos modernos”.

“A meu ver, isso implica que houve várias linhagens distintas dentro dos hominídeos que faziam experiências com o bipedismo de maneiras diferentes”, explica.

Fred Spoor, especialista de Anatomia humana do Museu de História Natural de Londres, no Reino Unido, afirma que se surpreendeu ao ver que “os hominídeos ainda tinham um dedo grande que os permitia agarrar, já que se pensava que isso era incompatível com um bipedismo efetivo”.

À emissora britânica, Fernandez disse que espera agora analisar outros ossos da parte dianteira do pé para completar a sua investigação. Os pés dos primeiros hominídeos tinham um conjunto de funções variadas e versáteis, destaca.

Tornar-se humano não foi um “passo gigante”, mas o resultado de uma série de mudanças graduais, incluindo uma das mais importantes, a evolução do dedo grande.

O ser humano é o único primata em que o hálux está paralelamente alinhado aos outros dedos, sendo esse um fator-chave para a locomoção bípede.

ZAP // BBC

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