Em nome da ciência, polvos tomaram ecstasy (e houve muito amor à mistura)

ken-ichi / Flickr

Octopus bimaculoides

O que é que acontece quando um polvo consome drogas, mais concretamente ecstasy? Cientistas norte-americanos tiveram a oportunidade de realizar essa experiência.

De acordo com o Science Alert, a equipa de investigadores deu MDMA, substância psicotrópica também conhecida por ecstasy, a vários polvos solitários, e basicamente começou a observar como estes cefalópodes se agarravam uns aos outros.

À primeira vista, esta investigação parece algo estranha mas, na verdade, conseguiu alguns resultados importantes, demonstrando uma ligação evolutiva entre humanos e estes animais na forma como a serotonina codifica o comportamento social.

“Apesar das diferenças anatómicas entre o polvo e o cérebro humano, conseguimos mostrar que existem semelhanças moleculares no gene transportador da serotonina”, afirma a neurocientista Gül Dölen, da Universidade Johns Hopkins, nos EUA. “Estas semelhanças moleculares são suficientes para permitir que o MDMA induza comportamentos pró-sociais nestes animais”, acrescenta a investigadora.

Segundo o mesmo site, mais de 500 milhões de anos separam os polvos dos humanos, isto é, quando os dois últimos tiveram um ancestral comum. Mas depois de o genoma do polvo de dois pontos da Califórnia (Octopus bimaculoides) ter sido sequenciado e publicado, os cientistas suspeitaram que os cérebros das duas espécies podem funcionar da mesma forma – de uma maneira específica.

Dölen e o biólogo evolucionista e marinho Eric Edsinger, do Laboratório de Biologia Marinha, descobriram uma semelhança genética entre humanos e polvos. O estudo foi publicado, esta quinta-feira, na revista científica Current Biology.

Em causa está o transportador que liga a serotonina, idêntico entre humanos e o “bimac”, como também é conhecida esta espécie de polvo. A serotonina desempenha um papel na regulação do humor, sentimentos de felicidade e bem-estar, assim como depressão – e a sua atividade é aumentada graças ao MDMA.

O ecstasy é conhecido por ser uma droga “feliz”, que aumenta os sentimentos de euforia, empatia e vontade de se relacionar com os outros. E isto não foi só observado em humanos – ratos também tiveram a mesma reação quando estiveram expostos a esta substância.

A diferença é que humanos e ratos costumam ser animais sociais, ao contrário dos polvos, como o O. bimaculoides, que são conhecidos por serem solitários, preferindo a sua própria companhia à dos seus companheiros.

Acontece que podem ser um pouco mais sociais do que pensávamos, especialmente com um pouco de ajuda neuroquímica. Para isso, os investigadores norte-americanos fizeram duas experiências.

(dr) Edsinger & Dolen / Current Biology

Na primeira, cinco polvos macho e cinco polvos fêmea foram colocados em câmaras. De um lado, visível através de uma parede clara com um buraco, para que o polvo pudesse entrar, estava um boneco de plástico. Do outro lado, novamente separado por uma parede com um buraco, estava outro polvo, numa gaiola.

Sem estarem drogados, todos os polvos, machos e fêmeas, estavam interessados em socializar com polvos femininos, mas não com os machos. Ou seja, não revelaram ser super-sociais, mas eram mais sociais do que se pensava anteriormente.

Com o MDMA, quatro polvos macho e quatro polvos fêmea estiveram expostos a esta substância, antes de serem colocados na mesma câmara durante 30 minutos. Desta vez, todos passaram mais tempo com outros polvos, incluindo os machos (e houve imenso contacto físico).

“Não é apenas uma questão de ter mais tempo, é qualitativo. Os polvos tenderam a abraçar a jaula e colocar a sua boca na gaiola”, explica Dölen. “Isto é muito semelhante ao modo como os humanos reagem com o MDMA: tocam-se com frequência“.

Esta pesquisa não só nos explica melhor a evolução da sinalização serotoninérgica na regulação de comportamentos sociais, é também uma descoberta que poderia ajudar a estudar e a desenvolver drogas psiquiátricas, particularmente antidepressivos inibidores seletivos de recaptação de serotonina (SSRI na sigla em inglês).

Mas primeiro, os resultados precisam de reconfirmados com novas pesquisas. Entretanto, os investigadores estão a sequenciar os genomas de duas outras espécies de polvos, que são diferentes do O. bimaculoides, na esperança de lançar mais luzes sobre como os seus comportamentos sociais evoluíram.

ZAP //

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3 COMENTÁRIOS

  1. Por favor, corrijam a notícia. Gül Dölen é uma neurocientista, bastante reconhecida na sua área e de grande mérito. Uma investigadora, não investigador.

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