A “tele-escola” em 2006: Gisela conta como era

André Kosters / Lusa

#EstudoEmCasa – A Escola na Televisão

20 de abril de 2020: o regresso da escola à RTP, agora com a designação Estudo em Casa. Um ano depois desse momento, cruzámo-nos com uma jovem que nasceu em 1994 e que ainda estudou através da tele-escola (ou mais ou menos). Gisela Sampaio conta como eram as aulas no ano letivo 2005/06, em duas escolas em Guimarães. Frequentava o sexto ano mas estava na escola primária.

ZAP – Tele-escola, Ciclo Preparatório TV, Ensino Básico Mediatizado: várias designações para o ensino à distância, que terminou em 2004…
Gisela – 2004?

ZAP – Sim. Pelo menos oficialmente, sim.
Gisela – 2006. A minha escola e outra escola do meu concelho, Guimarães, ainda tiveram o método tele-escola em 2005/06. Pelo menos era essa a designação. Do que tenho conhecimento, essas duas escolas foram as últimas do país a utilizar a tele-escola. Foi em 2006, quando terminei o sexto ano de escolaridade.

ZAP – Situa as escolas.
Gisela – Em São Faustino, que é a minha freguesia, e em Calvos.

ZAP – E portanto, no teu quinto e sexto anos, vias vídeos? Como é que funcionava?
Gisela – Não era bem assim, não eram vídeos. Lembro-me de existirem armários de metal, fechados, com televisões antiguinhas e com cassetes. E as aulas de música, realmente, eram através de vídeos, mas as outras aulas eram com professoras. Só duas professoras: uma da área das letras, que lecionava português, francês, história e moral; a outra da área das ciências, que lecionava ciências naturais, matemática, educação visual e tecnológica e música.

ZAP – Tudo isso de forma presencial.
Gisela – Sim. Mas o nome manteve-se. Não tenho muito conhecimento de como funcionava antes. Mas eu tinha um horário físico, presencial, na escola.

ZAP – A turma tinha muitas crianças?
Gisela – Acho que éramos 10. E na outra freguesia não eram muitos.

ZAP – No ano letivo seguinte, no teu sétimo ano, sentiste diferenças no ensino, nos horários…?
Gisela – Eu não tinha conhecimento de outra realidade. Para mim, era normal o quinto e o sexto anos serem feitos na escola primária, nas instalações da escola primária. Foi novidade ter um professor para cada disciplina. Lembro-me de os professores dizerem que os meninos que vinham de escolas como a minha eram mais bem comportados. Éramos muito caladinhos!

ZAP – Durante o teu percurso escolar, mais tarde, alguma vez te sentiste prejudicada até ao sexto ano?
Gisela – Um bocadinho. Senti no inglês. Quando chegávamos ao quinto ano, só tínhamos a opção do francês, quando é suposto haver escola entre inglês e francês. Por muito que se queira recuperar, é difícil, foram dois anos de estudo de inglês que ficaram para trás, em relação aos outros colegas. Faz diferença. E também acabou por prejudicar um bocadinho nas disciplinas não muito teóricas. Porque, como eram só duas professoras, roubavam um bocadinho de tempo dessas disciplinas (como EVT ou educação física) para as disciplinas como matemática. Lembro-me que, muitas vezes, só tínhamos aula de educação física porque estava presente o professor de educação física da primária e a nossa professora pedia para nós nos juntarmos. EVT… Não tínhamos propriamente EVT. Era quase “a hora do desenho”.

ZAP – Ver vídeos, aprender por vídeos: só em educação musical?
Gisela – Sim. Nunca aprendi a tocar flauta, como a maioria. A música famosa do ‘Titanic’…não faço ideia de como se toca.

ZAP – Alguma vez viste a atual tele-escola?
Gisela – Sim, por curiosidade. Como eu trabalho em escolas, como terapeuta ocupacional, tive curiosidade em ver. A parte que me interessava mais ver era a parte da inclusão.

ZAP – E o que achaste?
Gisela – Não consigo falar muito sobre os conteúdos, porque as coisas mudaram. Em relação às dinâmicas, pareceu-me interessante. E também acredito que, para os professores, não tenha sido fácil adaptarem-se, assim do nada. São professores, não são atores. E é muita pressão. Acho que pecou a parte da inclusão, dos meninos que necessitam de outro tipo de acompanhamento; e se calhar foi por isso que, neste novo confinamento, optaram por esses meninos continuarem a estar presentes na escola.

  Nuno Teixeira, ZAP //

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