“Não trabalha, não recebe”. Atraso de um minuto vale desconto no ordenado de maquinista japonês

shibuya246 / Flickr

O karoshi, ou morte por excesso de trabalho, é um problema tão grave no Japão, que tem um nome próprio

No Japão, os transportes públicos são famosos pela sua extrema pontualidade, ao passo que aos trabalhadores é exigida uma grande ética de trabalho.

Um maquinista de comboios japonês está a processar a sua entidade patronal depois de esta lhe ter descontado 33 cêntimos face ao atraso de um minuto que o trabalhador diz não ter sido culpa sua. A West Japan Railway Company, empresa que opera a rede de comboios no Oeste do Japão, justifica a atitude com a sua política restrita de “não trabalha, que não recebe”.

Em tribunal, o trabalhador reclama agora o valor que lhe foi descontado, o valor correspondente às horas extra que fez, mas também uma compensação referente aos danos morais e mentais causados pela decisão, isto de acordo com o The Guardian.

O caso parece ser um exemplo perfeito da pontualidade japonesa, mas também do pouco espaço que é dado aos trabalhadores para falhas na sua vida profissional. No âmbito dos transportes, é também frequente as empresas operadoras das linhas emitirem pedidos de desculpas aos passageiros quando os (raros) atrasos acontecem, mesmo que sem de breves segundos.

No caso do referido maquinista, a sua função naquele dia era transportar um comboio vazio para uma estação na cidade de Okayama, no entanto, só passado alguns segundos terá percebido que se encontrava a aguardar na plataforma errada. O equívoco resultou num atraso da operação em cerca de um minuto.

Como tal, a JR West (abreviatura do nome da empresa) entende estar no direito de confiscar ao trabalhador a parte do salário correspondente ao período em que se deu a confusão, argumentando que o maquinista não esteve efetivamente a trabalhar.

O queixoso, por seu lado, afirmou em tribunal que o que estava em causa era um “erro humano”, pelo que não devia ser considerado “ausente do posto de trabalho”. Argumentou também que a confusão não teve consequências ao nível dos horários das linhas e frequências dos compoios.

Inicialmente, a empresa retirou 65 cêntimos pelo atraso de dois minutos, mas acabou por reconsiderar e reduziu a penalização para o valor correspondente a um atraso de um minuto. Mesmo assim, o maquinista recusou-se a aceitar a penalização e levou o caso para tribunal, tendo as diligências começado em março.

De acordo com a agência France-Press, os principais pontos de discórdia entre as duas partes têm que ver com a interpretação das causas do atraso, com a empresa a escudar-se novamente na política “não trabalha, não recebe”.

Apesar da imprensa japonesa ter optado por não revelar o nome do maquinista, de forma a preservar a sua identidade, o caso foi largamente discutido nas redes sociais, com muitos internautas a apelar à empresa em questão – mas não só – a que sejam tão rápidas e rígidas a pagar, por exemplo, as horas extra trabalhadas pelos funcionários.

Tal como lembra o The Guardian, a rede de comboios japonesa raramente sofre atrasos significativos, sendo as situações de sismos ou tufões as grandes exceções. É também regra, nas poucas vezes em que os veículos se atrasam, serem dadas aos estudantes e trabalhadores justificações que podem ser entregues nas escolas e nas empresas que comprovem a verdadeira causa do atraso e de forma a ilibá-los de culpas no atraso.

Em 2017, uma das operadoras de comboios japoneses, na zona de Tóquio, emitiu um pedido de desculpa pelos “severos inconvenientes” causados pelo partida 20 segundos antes da hora de uma das suas carruagens.

  ZAP //

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