Tragédia de Hiroshima faz 77 anos. Como aconteceu?

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509th Operations Group / Wikipedia

Nuvem nuclear sobre Hiroshima fotografada a partir do Enola Gay, 6 de agosto de 1945

A cidade de Hiroshima, no Japão, assinala este sábado os 77 anos do lançamento da bomba atómica pelos Estados Unidos. A Cerimónia Memorial da Paz, que decorre numa altura de incerteza e tensão crescente entre potências militares mundiais, conta com a presença de António Guterres.

A 6 e 9 de agosto de 1945, os Estados Unidos detonaram bombas atómicas sobre as cidades de Hiroshima e Nagasaki, duas pequenas cidades japonesas.

Estes ataques, até hoje a única vez que armas nucleares foram usadas contra populações civis, mudaram a face da guerra e marcaram o início da “era nuclear”.

No verão de 1945, recorda o Live Science, a II Guerra Mundial tinha devastado vários continentes durante seis anos — após a invasão da Polónia pela Alemanha de Hitler, em 1939.

Para um Mundo cansado de morte e destruição, a capitulação da Alemanha, a 8 de maio de 1945, foi recebida com alegria e entusiasmo.

O Japão, no entanto, manteve-se firme na intenção de levar a guerra até ao fim. A sua determinação foi evidente nas batalhas de Iwo Jima e Okinawa — que, em ambos os casos, resultaram em inúmeras baixas para os EUA.

Em junho de 1945, os norte-americanos tinham perdido mais de 12 mil soldados. Os japoneses registavam mais de 90 mil baixas militares — e a perda de cerca de 100 mil civis.

Neste contexto, os líderes militares dos Aliados — entre outros, EUA, Reino Unido, União Soviética e China — desenharam planos para a Operação Downfall, uma invasão em grande escala do Japão para pôr fim à guerra.

No entanto, face ao número estimado de um milhão de mortes entre os aliados — e mais 10 milhões de baixas entre os japoneses, incluindo civis — os militares das forças Aliadas procuraram outra forma de acabar com o conflito.

Encontraram-na no famigerado Projecto Manhattan — que investigava desde 1942 o potencial do urânio, em particular o isótopo urânio-235, para construir uma poderosa bomba nuclear.

Em poucos meses, reuniu-se uma vasta equipa de cientistas norte-americanos, britânicos e europeus, muitos dos quais exilados da Alemanha, Itália e outros países do Eixo fascista, para trabalhar no projecto — antes de que os Alemães o conseguissem primeiro.

Albert Einstein, na altura considerado “um risco de segurança”, foi, curiosamente, afastado do projecto.

Após vários anos de pesquisas desenvolvidas no maior secretismo, o Projecto Manhattan tinha criado duas bombas com isótopos diferentes: urânio-235 e plutónio-239.

A primeira destas bombas, “Little Boy“, usava cerca de 64kg de urânio-235. A bomba era tudo menos pequena: pesava 4,4 toneladas.

A segunda bomba, “Fat Man“, era ainda maior: com cerca de 4,7 toneladas, usava um núcleo de pultónio-239 para criar uma reação nuclear capaz de libertar a energia de 21 mil toneladas de TNT.

A bomba de plutónio foi testada a 16 de julho de 1945, em Alamogordo, no Novo México — data em que o Mundo viu pela primeira vez a detonação de uma bomba nuclear, e que marca o início da Era Atómica.

Em 1945, a pequena cidade de Hiroshima, com 255 mil habitantes, mantinha-se praticamente intocada pela guerra. Era um importante centro de produção de material bélico e a sua base militar tinha 40 mil soldados japoneses estacionados.

A cidade costeira foi escolhida como primeiro alvo de um ataque nuclear dos Aliados.

Ao início da manhã de 6 de agosto de 1945, o Enola Gay, um bombardeiro B-29 da Força Aérea norte-americana, partiu da ilha de Tinian, a cerca de seis horas de distância de Hiroshima. Levava a bordo a “Little Boy”.

Às 8.15 horas, o Enola Gay lançou a sua bomba de urânio sobre Hiroshima.

“Little Boy” explodiu a cerca de 580 metros de altitude sobre a cidade ainda meio adormecida, alheia à catástrofe que sobre si estava prestes a acontecer.

A enorme explosão destruiu instantaneamente a maior parte da cidade e tirou a vida a cerca de 140 mil pessoas. Num raio de 2 km, todos os habitantes morreram, e todos os edifícios ficaram destruídos.

A devastação causada por uma única bomba e o número de vidas perdidas em poucos segundos em Hiroshima deveria ter posto fim ao que restava da II Guerra Mundial. Mas, para grande surpresa dos comandantes militares Aliados, o imperador Hirotito recusou render-se.

Os Aliados decidiram então lançar uma segunda bomba nuclear sobre o Japão. A antiga cidade fortificada de Kokura estava no topo da lista de restantes alvos potenciais das forças Aliadas.

Pouco depois das 4h da manhã de 9 de agosto, três dias depois da detonação em Hiroshima, um segundo bombardeiro B-29, chamado Bockstar, levantou voo de Tinian. A bordo, seguia “Fat Man”.

Mas as condições atmosféricas e a fraca visibilidade pouparam Kokura à destruição. Impossibilitada de largar a sua bomba de plutónio sobre a cidade, a tripulação avançou para o nome seguinte na lista: Nagasaki.

Com um grande porto de mar, a cidade sediava armadores que alimentavam a marinha nipónica e empresas industriais importantes para o esforço de guerra japonês — entre os quais, a Fábrica de Aço e Armamento da Mitsubishi.

Apesar de também Nagasaki estar encoberta pelas nuvens, a tripulação do B-29 encontrou uma aberta — e, pouco depois das 11h da manhã, a segunda e última bomba nuclear alguma vez detonada contra populações civis explodiu sobre a cidade costeira.

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A poderosa explosão destruiu imediatamente a maior parte da cidade. Pelo menos 40 mil pessoas perderam a vida instantaneamente, mais 40 mil nos seis meses seguintes.

O terreno montanhoso e o facto de a bomba ter sido largada a quase 3,2 km do alvo previsto pouparam a cidade a uma devastação ainda maior.

A 15 de agosto de 1945, seis dias após Hiroshima, o imperador Hirohito anunciou a rendição incondicional do Japão — pondo assim efectivamente fim à II Guerra Mundial.

Em todo o planeta, milhões de pessoas rejubilaram e festejaram o fim da guerra. Mas no Japão, pouco havia para celebrar.

O número exato de mortes causadas pela detonação das bombas sobre Hiroshima e Nagasaki permanece indeterminado até hoje.

Mas, entre as mortes causadas diretamente pela explosão das bombas e as resultantes dos efeitos da radiação nuclear que seguidamente cobriu as duas cidades, estima-se que até 246 mil pessoas tenham perdido a vida.

Quando o entusiasmo inicial pelo fim da guerra acalmou, a maior parte dos cientistas envolvidos no Projeto Manhattan manifestou a sua consternação pelo efeito devastador das suas criaturas.

“Tornei-me a Morte, o destruidor de mundos”, disse então J. Robert Oppenheimer, líder da equipa e considerado o “Pai da Bomba Atómica”, num célebre discurso.

Alarmados pelos efeitos catastróficos do uso de armas nucleares, alguns dos cientistas envolvidos no projecto fundaram a Federation of Atomic Scientists, organização não governamental que até hoje luta contra a proliferação nuclear.

Mas, no dia em que passam 77 anos após a detonação de “Little Boy” em Hiroshima, há um número estimado de 12.700 bombas nucleares em todo o mundo.

Estas bombas estão nas mãos de nove países: Estados Unidos, Rússia, China, França, Reino Unido, Paquistão, Índia, Israel e Coreia do Norte. O Irão está a um passo de se juntar à lista.

Cerca de 90% destas bombas são norte-americanas ou russas. E uma guerra nuclear entre estes dois países não se limitaria a destruir algumas cidades.

De acordo com duas simulações diferentes, realizadas por equipas de investigação independentes, uma guerra nuclear entre os Estados Unidos e a Rússia resultaria em mais de 90 milhões de mortos e feridos, só nas primeiras horas do conflito — e mergulharia o mundo num Inverno nuclear durante pelo menos dez anos.

De acordo com os especialistas em assuntos militares, o risco de uma guerra nuclear é baixo, mas não é zero — e a incerteza causada recentemente quer pela invasão da Ucrânia pela Rússia quer pela tensão crescente entre a China e os EUA à volta de Taiwan ameaça criar a maior crise nuclear desde a Guerra Fria.

Como alertou esta semana o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, que este sábado participa em Hiroshima na Cerimónia Memorial da Paz, o mundo encontra-se apenas à distância de um erro de cálculo do Holocausto Nuclear.

No seu discurso durante a cerimónia, que assinala a data na cidade, Guterres fez um forte apelo aos líderes mundiais para removerem as armas nucleares dos seus arsenais. “A Humanidade está a brincar com uma arma carregada“, salientou Guterres.

Após a detonação da bomba de Hiroshima, os cientistas estimaram que durante 75 anos nenhuma vida poderia brotar na zona atingida pela radiação nuclear. Mas, poucos anos mais tarde, um aloendro floresceu na cidade reconstruida.

O aloendro, tão belo quanto tóxico, tornou-se a flor oficial oficial de Hiroshima, um símbolo da força e esperança dos seus habitantes.

Este sábado, 6 de agosto, Hiroshima assinala os 77 anos do dia fatídico em que “Little Boy” a arrasou — com a esperança provavelmente vã de que os líderes mundiais decidam guardar as bombas nucleares nos seus quintais, e em vez delas se contentem em atirar aloendros uns aos outros.

  Armando Batista, ZAP //

8 Comments

  1. Não foram os terroristas islâmicos!?
    Os comunistas!’
    Os iranianos!?
    Os talibans!?
    Os russos!?
    Os palestinianos!?

    • Por acaso, os comunistas russos até estavam na panelinha, que, por acaso, até era contra os fascistas imperialistas japoneses. Curioso, não é?

      • Factos
        Americanos acolheram as “melhores” mentes criminosas, e foram os únicos que até hoje mataram com o uso do nuclear e ainda festejam, e os cobardes dos japoneses ainda agradecem, mas no fim acho que quem tramou tudo foram os russos

        • Sabes, cada um mata com o que tem, e ao fim do dia morreu, está morto.
          Os americanos foram os únicos que mataram com nuclear; os japoneses foram os únicos que mataram com Zeros Kamikazes em Pearl Harbor; os alemães foram os únicos que mataram com gás (na I e na II guerra mundial); os sírios foram os únicos que mataram com armas químicas; os russos foram os únicos que mataram com novichok; e tu és o único que nos mata de tédio com os teus comentários.
          Todos os outros, incluindo russos, chineses, portugueses, romanos ou persas mataram com espingardas, canhões, espadas, catapultas ou bombas convencionais.
          Excepto os neandertais, que mataram com paus e pedras.
          Qual é a diferença?
          A diferença é que não foram os americanos que começaram a I Guerra Mundial, não foram os americanos que começaram a II; estavam sossegados a assistir na bancada quando foram atacados pelos (cobardes, dizes tu) japoneses em Pearl Harbor.
          Mas foram os americanos que acabaram com a II Guerra. Com o tal “uso do nuclear”. Que parece que matou menos gente do que as alternativas.
          Factos.

        • J. Galvao, fofinho , gulag, os americanos também envolveram os russos, ja naquele tempo nao queria ser acusados de isolamento. e nao houve tribunal que os castigassem por crimes de GUERRA.

      • J. Galvao, fofinho , gulag, os americanos também envolveram os russos, ja naquele tempo nao queria ser acusados de isolamento.

  2. Por enquanto a guerra nuclear global não nos ameaça. Os discípulos perguntaram a Jesus: “Conte para nós quando é que isso vai acontecer. Que sinal haverá para mostrar quando é que todas essas coisas vão começar?” (Marcos 13:4, NTLH Nova Tradução na Linguagem de Hoje) Jesus disse: “Quando ouvirem falar em guerras e insurreições, que o pânico não se apodere de vocês. De facto, estas coisas têm de acontecer, mas o fim [τελος – neste contexto: cumprimento (do sinal)] não chegará imediatamente.” (Lucas 21:9, O Livro)
    “Vocês ouvirão falar de guerras e ameaças de guerras, mas não entrem em pânico. Sim, é necessário que essas [todas (incluindo anunciado em Daniel 11:29)] coisas ocorram, mas ainda não será o fim [τελος – neste contexto: cumprimento (do sinal)].” (Mateus 24:6, NVT)
    A guerra nuclear global (este será o cumprimento do sinal de Jesus) vai começar com um conflito étnico: “Porquanto se levantará nação contra nação”, (como em 2008 na Geórgia).(Mateus 24:7)
    O profeta Daniel escreve: “No tempo designado [o rei do norte] voltará [as tropas russas voltarão para onde estavam anteriormente estacionadas. Isto também significa ação militar, grande crise, desintegração da União Europeia e da NATO. Muitos países do antigo bloco de Leste voltará à esfera de influência russa]. E entrará no sul [este será o início de uma guerra mundial], mas não serão como antes ou como mais tarde [as atuais ações militares não conduzirão a uma guerra nuclear global. Esta guerra só começará após o retorno do rei do norte, e por causa do conflito étnico], porque os habitantes das costas de Quitim [o distante Ocidente, ou para ser mais preciso, os americanos] virão contra ele, e (ele) se quebrará [mentalmente], e voltará atrás”. (Daniel 11:29, 30a) Desta vez será uma guerra mundial, não só pelo nome. A “poderosa espada” também será usada. (Apocalipse 6:4) Jesus o caracterizou assim: “coisas atemorizantes [φοβητρα] tanto [τε] quanto [και] extraordinárias [σημεια] do [απ] céu [ουρανου], poderosos [μεγαλα] serão [εσται].” É precisamente por causa disso haverá tremores significativos ao longo de todo o comprimento e largura das regiões [estrategicamente importantes], e fomes e pestes.
    Muitos dos manuscritos contém as palavras “e geadas” [και χειμωνες].
    A Peshitta Aramaica: “וסתוא רורבא נהוון” – “e haverá grandes geadas”. Nós chamamos isso hoje de “inverno nuclear”. (Lucas 21:11)
    Em Marcos 13:8 também há palavras de Jesus: “e desordens” [και ταραχαι].
    A Peshitta Aramaica: “ושגושיא” – “e confusão” (sobre o estado da ordem pública).
    Este sinal extremamente detalhado se encaixa em apenas uma guerra.
    Mas todas essas coisas serão apenas como as primeiras dores de um parto. (Mateus 24:8)
    Este será um sinal de que o “dia do Senhor” (o período de julgamento) realmente começou. (Apocalipse 1:10; 2 Tessalonicenses 2:2)

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