Ainda é um mundo de homens. Só quatro mulheres concorreram a Belém (porque geram “desconfiança”)

José Fernandes / Lusa

Eleições Presidenciais 2021: Debate televisivo entre Marisa Matias e Ana Gomes

Ana Gomes, Marisa Matias (duas vezes), Maria de Belém e Maria de Lourdes Pintasilgo. São as únicas mulheres que se atreveram a candidatar-se à Presidência da República desde o 25 de Abril. Um dado que reflecte a “desconfiança” que elas ainda geram na política que “continua a ser um mundo masculino”.

Nas vésperas das eleições presidenciais, as duas mulheres candidatas, Ana Gomes e Marisa Matias, reúnem menos de 20% das intenções de voto numa sondagem feita recentemente, enquanto Marcelo Rebelo de Sousa surge destacado com cerca de 60%.

Marisa foi a que ficou mais perto (mas muito longe)

Em 2016, Marisa Matias foi também a candidata do Bloco de Esquerda à Presidência da República, sendo a terceira mais votada, atrás de Sampaio da Nóvoa (22,88%) e de Marcelo (52%).

A bloquista arrecadou 10,12% da votação num total de 469.814 votos, tendo obtido o melhor resultado de sempre de uma mulher em eleições presidenciais.

Maria de Belém, candidata independente, apesar do historial ligado ao PS, ficou com apenas 4,24% da votação, num total de 196.765 votos.

Mas para encontrar outras candidatas a Belém é preciso recuar 30 anos.

Em 2006, Carmelinda Pereira, dirigente e militante do POUS, Maria Teresa Lameiro, funcionária pública, e Manuela Magno, docente da Universidade de Évora, não conseguiram juntar as assinaturas necessárias para concorrerem à Presidência.

Em 1991, Maria Amélia Santos, então eurodeputada apoiada por Os Verdes, desistiu a favor da candidatura de Mário Soares que viria a ser eleito com 70,35% dos votos.

A primeira mulher a concorrer ao cargo de Presidente da República foi Maria de Lourdes Pintasilgo, em 1986.

A antiga primeira-ministra, a única mulher que foi chefe de Governo em Portugal, teve o apoio da União Democrática Popular (UDP) e obteve um total de 418.961 votos.

Estão em causa 7,38% dos votos, percentagem que arredou Pintasilgo da segunda volta eleitoral, disputada por Freitas do Amaral e Mário Soares. Soares acabaria por ganhar com 51% dos votos.

No total destes 46 anos desde o 25 de Abril, dá pouco mais de um milhão de votos (mais precisamente 1 085 540) para todas as mulheres que alguma vez se candidataram a Belém.

Mulheres são alvo de “maior escrutínio” e “pressão”

A investigadora Maria Helena Santos, do Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE-IUL), que é especializada em estudos sobre Género e Profissões, não tem dúvidas de que “a política continua a ser um mundo masculino”.

Em conversa com o ZAP, a também co-coordenadora do Psychange, grupo de investigação do Centro de Investigação e Intervenção Social do ISCTE, constata que por a política ser “um mundo marcadamente masculino”, as mulheres que nele se movimentam têm uma “elevada visibilidade”.

“Como continuam a ser poucas, tornam-se mais visíveis” e isso torna-as alvo de “um maior escrutínio” e de “uma maior vigilância ou pressão para o bom desempenho”, analisa Maria Helena Santos.

Precisam “constantemente” de provar “as suas competências políticas”, diz ainda, considerando que “há uma espécie de “desconfiança” sobre as mulheres, que não há em relação aos homens, como se estes “nascessem naturalmente para a política”.

“Isso não é fácil para as mulheres, que ficam sem saber muito bem como se comportar”, nota também a investigadora, concluindo que são “criticadas quer adoptem estilos de liderança estereotipicamente masculinos, quer adoptem estilos de liderança estereotipicamente femininos”.

Essa “desconfiança” é, muitas vezes, “interiorizada pelas próprias mulheres, o que as leva a sentirem-se pouco auto-confiantes” e a “interrogarem-se quanto à sua auto-eficácia”, o que acaba por denotar “algumas inseguranças e dificuldades”.

“Governo com o maior número de mulheres de sempre”

Direitos Reservados (cedida)

Rosa Monteiro, Secretária de Estadopara a Cidadania e a Igualdade

Apesar deste cenário, a Secretária de Estado para a Cidadania e a Igualdade, Rosa Monteiro, realça, em declaração enviada ao ZAP, que “a União Europeia reconheceu que Portugal foi o país que mais rapidamente avançou em termos de acesso de mulheres a cargos de decisão nas empresas e na política, em resultado quer de leis existentes, quer de decisões políticas, designadamente governativas”.

“Este é o Governo com o maior número de mulheres de sempre, representando estas 39% dos seus membros”, aponta ainda Rosa Monteiro.

Contudo, a Secretária de Estado assume que há “muito caminho a fazer” e considera que “esse caminho tem de ser feito pelos partidos, nas oportunidades que dão e na capacitação de mulheres para integrarem as listas”.

Rosa Monteiro acrescenta que é preciso que o ano de 2021 fique “marcado pelo cumprimento escrupuloso e efectivo, por parte dos partidos políticos, do princípio da paridade consagrado na lei, integrando o maior número de mulheres nas listas das autárquicas”.

Igualdade de género na campanha (mas nem tanto)

O ZAP procurou falar com Ana Gomes e com Marisa Matias sobre a sua perspectiva acerca da participação das mulheres na vida política, mas as candidatas não conseguiram encontrar tempo nas respectivas agendas para responder.

Os direitos das mulheres e a igualdade de género são bandeiras de ambas e foram abordados, embora ao de leve, durante a campanha eleitoral.

Ana Gomes realçou, durante uma entrevista no programa de Manuel Luís Goucha na TVI, a importância de acabar com a “violência machista” numa “sociedade ainda muito antiquada e patriarcal”. “90% das vítimas de violência, em casa e no espaço público, continuam a ser mulheres e crianças”, apontou.

“Uma mulher na Presidência da República pode fazer uma grande diferença para que isto mude” através da “magistratura de influência” que o cargo permite, analisou ainda.

A militante socialista também prometeu que se for eleita, irá “garantir que há, de facto, paridade”, cumprindo a Lei da igualdade de género que, “em muitos lados, não é pura e simplesmente aplicada, incluindo em empresas públicas”.

Marisa Matias, que já se definiu como feminista “na teoria e na prática”, prometeu, durante uma acção de campanha, colocar a questão da igualdade de género na agenda política se for eleita Presidente.

Estamos a assistir a retrocessos não apenas neste domínio, mas também em termos de igualdade entre homens e mulheres e o exemplo tem que vir do cargo mais alto da nação”, considerou, apontando que “a igualdade nunca será igualdade neste país enquanto for tratada como adereço e não no centro de todas as políticas“.

Mas também o candidato João Ferreira, apoiado pelo PCP, falou do tema durante uma sessão sobre os direitos das mulheres no Museu da Chapelaria de São João da Madeira. “A pobreza, a precariedade e os baixos salários têm rosto feminino”, vincou, insistindo na importância da defesa do direito à conciliação da vida profissional com a vida familiar.

João Ferreira fez ainda questão de realçar que a sua candidatura “não é de um homem só”. “Somos muitos, homens e mulheres, iguais em direitos“, concluiu.

Contrariando o “Síndrome da abelha rainha”

Nos seus estudos sobre Género e Profissões, Maria Helena Costa faz referência ao “síndrome da abelha rainha”, uma expressão que se refere à competitividade negativa que surge, por vezes, entre mulheres que se movimentam no mesmo contexto profissional. Em vez de se aliarem num mundo de homens, estas tendem a atacar-se e a tentar anular-se mutuamente, de acordo com o que descreve o síndrome.

Contudo, nestas presidenciais, Ana Gomes e Marisa Matias nem sequer se têm atacado especialmente, mesmo que disputem a mesma franja do eleitorado de esquerda.

Ana Gomes até veio a público apoiar Marisa Matias, depois do ataque do “batom vermelho” que lhe foi feito por André Ventura.

A ex-eurodeputada do PS associou-se ao movimento #VermelhoEmBelém num gesto de solidariedade feminina que foi um dos momentos marcantes desta campanha presidencial.

Susana Valente Susana Valente, ZAP //

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11 COMENTÁRIOS

  1. Para quê uma mulher Presidenta? É alguma coisa de especial? Só se for para ser destituída, como aconteceu com Dilma Rousseff!

  2. Agradecia à moderação que verificasse que o meu comentário anteriormente postado, não tem nada que vá contra as regras de postagem do ZAP. Pode ir contra a lavagem cerebral que as feministas querem impor, mas isso ainda não é regra de postagem, que eu saiba.

  3. A ultima vez que eu vi isto ainda era uma democracia. As pessoas votam em quem quiserem, o género é uma variável que nem entra para as contas. Qualquer pessoa pode-se candidatar a presidente, há mais que igualdade no acesso, depois é convencer quem vota.

    • Não… Elas querem que votem nelas pelo facto de serem mulheres. Mas isso não se pode dizer. Já me bloquearam três comentários com zero injúrias ou ofensas ou palavrões. O feminismo é uma ideologia despótica, de silêncio e de coerção.

  4. Está senhora secretária de estado mamona tem que recorrer a está conversa da treta para mostrar trabalho? É que realmente não a vejo fazer nada, nem sem para que serve o cargo que tem…

  5. A maioria dos homens prefere o Futebol…Há Cursos superiores com mais mulheres que homens! É positivo a entrada das mulheres na política, em cargos executivos e outros…Quem sabe? O Mundo não venha a ficar mais Pacífico?

    • Lena, é um facto de que o Futebol é uma quase fixação entre os homens. Por acaso não é o meu caso mas cada um gosta do que gosta. Há mulheres que adoram andar a tarde toda pra cima e pra baixo a ver lojas e montras. Também têm direito. Há outras que não ligam nada a isso.

      Mas a questão não é se o mundo fica mais pacífico. As mulheres têm o mesmo direito a ser tudo na política, desde que votem nelas. São pessoas e não “mulheres”. Vota-se em alguém por ser uma pessoa em quem se confia o destino do país. Essa pessoa pode ser homem ou mulher. Não se vota em alguém só pra dizer que há mulheres na política. Dizer que se quer ver mais mulheres na política ou no futebol ou onde quer que seja, só porque são mulheres, dá a entender que ser mulher é por si só motivo para ter esse direito. É como os homens começarem a protestar que querem que os bordeis tenham 50% de prostitutos masculinos. Faz cá um sentido!..

      Porque é que o mundo sería mais pacífico com mulheres no poder quando as mulheres estão sempre em guerra com tudo e com todos? Você vê por acaso movimentos de homens como o feminismo? Você sabia que muitos dos países que mais guerras fizeram tinham Rainhas? Elas mandam é os homens morrer nas guerras, isso talvez… Mas porque não há mais mulheres nas guerras? Pela mesma razão que não há mais mulheres a limpar esgotos, a subir a postes de alta tensão, a trabalhar nas obras, etc… Elas queixam-se é de não ser presidentes e executivas. São muito espertas… Queixam-se que não há mulheres suficientes em lugares de chfia mas não se queixam se há menos homens nas universidades. Será que o meio académico está montado para favorecer as mulheres? Se os homens fossem como as feministas diriam que era uma conspiração misândrica.

      É sabido que os homens são muito mais sinceros e amigos entre si do que as mulheres que são muito mais sacanas umas com as outras. E você ainda acha que o mundo seria mais pacífico?.. Tem piada… As mulheres não são todas a Madre Teresa de Calcutá. Olhe, eu a mim a minha Mãe sempre me deu mais tabefes do que o meu Pai. Vá lá, diga lá que ainda foram poucos, para confirmar o lado violento das mulheres.

    • Sim senhora, concordo plenamente… quando começar a ver mulheres a ocupar o lugar dos trolhas, dos ferrageiros, dos carpinteiros de cofragem, dos marteleiros, dos pedreiros, dos cimenteiros… Ufa, tantos cargos para as mulheres ocuparem e apenas as deixam ir para atrás das secretárias…!!! Realmente vivemos num mundo machista! Ó senhores da construção civil deixem as mulheres trabalhar!!

  6. Completamente de acordo. A natureza feminina é mesmo assim. São recalcamentos do passado, dos quais os homens atuais nada tem que serem condenados por isso.

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