Especial ZAP | Cecília Meireles. Da dramatização do senhor primeiro-ministro aos cidadãos de segunda

(fc) Cecília Meireles / Facebook

Cecília Meireles, cabeça de lista do CDS-PP às eleições legislativas, em entrevista ao ZAP

Os dedos de uma mão não são suficientes para Cecília Meireles enumerar as razões pelas quais faz sentido votar no CDS-PP no próximo domingo. Em entrevista ao ZAP, a cabeça de lista pelo círculo eleitoral do Porto não hesitou em afirmar que uma maioria absoluta do PS é perigosa para Portugal.

Numa espécie de “eu cá, tu lá”, os partidos políticos já mostraram não ser grandes amigos de sondagens. Se a esforço lá lhes apertam a mão, é com desagrado que as abraçam. Em relação ao CDS-PP, a verdade é que as sondagens subestimam muitas vezes o partido, ainda que essa tendência não se tenha verificado nas eleições europeias de maio.

No entanto, para já, não se prevê que o partido de Assunção Cristas vá muito além dos 5%, ainda que a líder admita precisar de mais do que um carro de cinco lugares nas eleições do próximo domingo. Abandonar a designação de “partido do táxi” e dar aos números a importância que eles tiverem – quando a tiverem -, é a estratégia dos centristas, que preferem centrar as atenções nas pessoas.

Cecília Meireles, vice-presidente do CDS, desvaloriza sondagens, números e gráficos e atira-se de cabeça aos argumentos. Para a cabeça de lista pelo círculo do Porto, é fundamental explicar porque é que é importante votar no CDS. “Se essa explicação for bem feita, eu tenho a certeza que as pessoas corresponderão.”

Nas eleições europeias, relembra a deputada, “houve um número muito elevado de abstenção”, pelo que, “neste momento, estamos concentrados em dizer às pessoas que vale a pena ir votar”. “Se nós queremos um país diferente isso só é possível através do voto. Nenhum voto no centro e na direita pode ser desperdiçado. Nós não queremos correr o risco de acordarmos no dia 7 com uma maioria de dois terços à esquerda. Não há vencedores à partida, mas essa possibilidade de dois terços à esquerda existe e eu acho que poderia trazer problemas muito graves a Portugal.”

Em entrevista ao ZAP, Cecília Meireles não tem medo de afirmar que uma maioria absoluta do Partido Socialista (PS) é perigosa para Portugal e, para o sustentar, recorre ao passado. “Eu acho que se tem percebido pela história portuguesa que as maiorias absolutas trazem muitos problemas de instalação do poder e se nós vemos o PS como vemos, com todos os casos a que temos assistido de nomeações de primos, familiares e amigos, imagine o que aconteceria com uma maioria absoluta”, sublinha.

De acordo com a cabeça de lista pelo Porto, o CDS-PP não coloca metas para a noite eleitoral de dia 6. Para já, os centristas unem esforços para “explicar aquilo a que nos propomos defender”, sem fazer “exigências aos eleitores”. “Para nós, um resultado aceitável é ter o máximo de pessoas possível a confiar no CDS e a confiar em nós para as representarem.”

A estratégia de dramatização do senhor primeiro-ministro

Um CDS escaldado, de uma crise dos professores tem medo. Se um dos objetivos nesta campanha eleitoral é aprimorar a mensagem que passam ao eleitorado, os centristas também reconhecem que a estratégia de há uns meses não resultou.

Falamos da crise dos professores e de um eleitorado que não percebeu a mensagem do partido. As culpas assumem-nas o CDS-PP que, nesta matéria, não conseguiu tornar clara a sua visão. Mas nesta missão fracassada, o partido não esteve sozinho: o PS ajudou ao fiasco.

“O CDS não tornou clara a sua visão o que, obviamente, foi potenciado por uma estratégia do senhor primeiro-ministro: uma dramatização e, mais do que isso, uma estratégia de absoluta desinformação sobre esta matéria”, atira Cecília Meireles, em declarações ao ZAP.

“A posição do CDS-PP é, desde o início, aquela que está claramente expressa no nosso programa e aquela que temos vindo a repetir para que se torne clara para todos. Do ponto de vista do CDS, tem de haver uma revisão da carreira dos docentes de modo a que a sua progressão esteja assente em critérios de avaliação, e critérios de avaliação pelo mérito”, esclarece a deputada, agora sem um PS no sapato.

Ainda em matéria de Educação, o CDS propõe que os alunos que não entrarem nas universidades públicas devido ao numerus clausus possam ingressar em vagas adicionais, pagando propinas ao preço do mercado, uma medida que tem sido apontada como uma das mais polémicas do partido.

“As universidades têm acesso a uma quota, uma quota que, atualmente, está apenas aberta a alunos estrangeiros. Aquilo que nós dissemos foi que, em alguns cursos com médias altíssimas, essas quotas, que são uma percentagem do numero total de vagas, estejam acessíveis quer a alunos estrangeiros quer a alunos portugueses, em igualdade de circunstâncias”, explica.

Cecília Meireles rejeita a ideia de que “quem tem dinheiro, paga para entrar na universidade” e fala em igualdade. “Se olharmos para o panorama de ensino superior nacional, vemos que os alunos de famílias mais favorecidas são aqueles que frequentam as universidades públicas, enquanto que aqueles que vêm de uma família mais desfavorecida e com menos dinheiro são, muitas vezes, aqueles que recorrem a uma universidade privada. Eu creio que esta forma de ver as coisas é, muitas vezes, deturpadora.”

“Não deve haver cidadãos de primeira nem de segunda”

Da mesma forma que na Educação deve haver igualdade, também na Saúde o CDS abana a mesma bandeira. Uma “ADSE para todos” é, segundo Cecília Meireles, um “impulso à liberdade de escolha das pessoas e das famílias em relação à sua própria vida”.

“Atualmente, temos uma ADSE sustentada com comparticipações de funcionários públicos. No CDS achamos que não deve haver dois países, nem cidadãos de primeira nem cidadãos de segunda. Por isso, estando a ADSE formada desta forma, faz sentido que todas as pessoas tenham o mesmo direito: o direito de, querendo, aderir à ADSE”, sustenta a centrista.

“Não se trata de retirar direitos aos funcionários públicos, pelo contrário. Trata-se de dizer que quem trabalha no privado tem de ter os mesmos direitos. Nós achamos que, sem por em causa a sua sustentabilidade financeira – até porque a sustentabilidade ficará a ganhar se este subsistema for aberto a mais pessoas – não compreendemos porque é que há de haver portugueses com esse direito e portugueses a quem este acesso é vedado”, acrescenta.

Questionada sobre se esta proposta é sustentável, a deputada não tem dúvidas em afirmar que sim. “Aquilo que dificilmente será sustentável é uma ADSE com um universo muito reduzido, como aquele que temos atualmente.”

Um “discurso de dar tudo a todos ao mesmo tempo”

O ano de 2019 em revista é, notoriamente, marcado por greves. No início deste mês, Assunção Cristas defendeu uma atualização da lei dos serviços mínimos para evitar que “um grupo pequenino pare um país”, numa referência à greve dos motoristas, uma das grandes paralisações que singularizou este ano, deixando Portugal na reserva.

Para o braço direito da líder do CDS-PP, “a primeira regra para lidar com greves é lidar com verdade”. “Não é por acaso que, neste ano, o Governo registou um número recorde de pré-avisos de greve, precisamente porque foram criadas expectativas. O Governo teve um discurso de dar tudo a todos ao mesmo tempo e, obviamente, não conseguiu cumprir. Isto levou a uma grande conflitualidade social.”

Para o CDS, é fundamental “equilibrar o direito à greve com outros direitos logísticos, como o direito das pessoas a se poderem movimentar”.

“Não é aceitável, num mundo global e numa economia aberta, que um número muito reduzido de pessoas possa, pura e simplesmente, parar o país. Nós achamos que faz sentido fazer uma revisão da lei da greve e dos serviços mínimos em sede de concertação social, com os trabalhadores e com os empregadores. Agora, a primeira parte também é importante: que não sejam criadas falsas expectativas às pessoas“, considera.

“Portugal foi ficando para trás”

A competitividade assume, no programa eleitoral do partido, um papel de destaque. E, para o CDS, “uma estratégia para a competitividade tem necessariamente de passar por uma aposta na redução dos impostos sobre a atividade empresarial”. É por esse motivo que o partido se compromete a colocar o IRC a 17% já em 2020, recuperando a reforma do IRC que estava em curso.

Do ponto de vista do Imposto Sobre o Rendimento das Pessoas Coletivas, o CDS quer dar continuidade à “baixa de IRC interrompida pelo atual Governo, porque sabemos que os países que têm salários melhores são, precisamente, os países mais competitivos do ponto de vista fiscal”.

“Com calma e tendo em conta as necessidades de equilíbrio das contas públicas”, o partido propõe uma baixa de IRC que permita que, em 2026, Portugal esteja ao nível da Irlanda. “Isso permitirá às nossas empresas competirem em pé de igualdade com os países mais competitivos do ponto de vista fiscal. Além disso, propomos algumas medidas ao nível da poupança e do investimento e também a criação de um regime fiscal mais favorável à criação de propriedade intelectual em Portugal”, esclarece a deputada.

Mas se a prioridade é baixar impostos, há nesta equação um pormenor que deve ser tido em conta: a perda de receita. Ainda assim, o CDS considera credível apontar a redução do IRS e do IRC como um estímulo à economia portuguesa. “Nós já perdemos muito tempo nesta aposta no crescimento”, justifica a centrista.

“O CDS olhou para o Programa de Estabilidade que o Governo apresentou em Bruxelas e que prevê um excedente orçamental acumulado de mais de 5 mil milhões de euros de 2021 a 2023. Aquilo que nós dissemos foi, responsavelmente e sem pôr em causa o equilíbrio das contas públicas, utilizar uma parte (60%) para aliviar a carga fiscal“, explica ao ZAP.

“Quando se diz que aumentamos a carga fiscal isso quer dizer que a cobrança de impostos e contribuições por parte do Estado cresceu mais do que a economia, ou seja, quer dizer que, da riqueza que o país produziu, o Estado ficou com uma parte maior. O que nós achamos é que, quando as pessoas se esforçam, quando o país cresce, a grande parte desse crescimento deve ficar para as próprias pessoas. Aquilo que nós fazemos é, numa estimativa conservadora e utilizando as próprias contas que o Governo apresentou em Bruxelas, pegar numa parte desse excedente e devolvê-lo às famílias e às empresas.”

No entender de Cecília Meireles, os últimos quatro anos nada mais foram do que uma oportunidade perdida. “Eu acho que nós tivemos, nos últimos quatro anos, uma excelente oportunidade de crescimento. A Europa estava toda ela em crescimento e havia uma política de juros baixos. Houve aqui uma grande oportunidade que Portugal deveria ter aproveitado. Na realidade, o que aconteceu é que Portugal foi ficando para trás.”

Para a deputada, o Governo não baixa impostos simplesmente porque não quer. “Eu acho incompreensível que, cada vez que são discutidos os números da execução orçamental, que são discutidos todos os meses, em que há um aumento da receita de impostos, o Governo se venha gabar do crescimento económico e depois, quando se fala em baixar impostos, já diz que não é possível fazê-lo porque pode vir aí uma recessão.”

“É precisamente por sabermos que a economia tem ciclos que temos de apostar no crescimento do país”, sustenta.

PSD e as maiorias alternativas

Questionada sobre a possibilidade de entendimento com o Partido Social Democrata (PSD), Cecília Meireles é tenaz em afirmar que “sempre que o país precisou, nunca foi por falta de entendimento entre o PSD e o CDS que não se chegou a soluções para Portugal”.

“O CDS já deixou claro ao longo da sua história que não tem problemas e que, quando o país precisa, sabe muito bem que é possível, com o PSD e com todas as pessoas do espaço não-socialista, construir maiorias alternativas“, continua a deputada centrista, sublinhando que o essencial “é construir uma alternativa face a este Governo do PS”.

“Ao longo desta legislatura fomos o único partido que disse ‘nós temos propostas’ e pusemos sempre as nossas propostas em cima da mesa. Mas elas não são, de facto, uma proposta de aliança com o PS, são uma proposta de alternativa face ao PS, e portanto é isto que propomos nestas eleições.”

A número um do CDS pelo Porto reitera uma das primeiras frases que abre o programa eleitoral do partido – votar no CDS faz sentido – e não lhe sobram dedos quando se prontifica a enumerar razões.

“Faz sentido para quem acha que deve libertar as famílias e as empresas da maior carga fiscal de sempre e que trabalhar e ter mérito tem que se recompensado. Faz sentido também para quem acha que o Estado deve dar condições para construir um projeto de vida em família com liberdade e isto implica que o Estado crie algumas condições para quem queira ter mais filhos – é o caso da nossa proposta de alargar a licença de parentalidade até 1 ano flexível entre pais e avós ou, por exemplo, o acesso a creches da rede privada quando as pessoas não têm vaga na rede social ou na rede publica”, elenca.

E porque o CDS está pronto para vencer no mundo global, faz sentido votar no partido porque “acreditamos num país aberto ao mundo e numa economia aberta à concorrência”. “Quem acha que é possível reformar a Educação, que é possível fazer uma verdadeira revolução na formação profissional e que é preciso uma concorrência com uma regulação a funcionar, mas deixando a iniciativa privada respirar, faz sentido votar CDS.”

Nota: No âmbito das Eleições Legislativas 2019, o ZAP contactou os partidos que, em 2015, reuniram mais de 0,50% dos votos.

LM, ZAP //

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