Ex-presidente da Assembleia Geral da ONU detido nos EUA

John Gillespie / United Nations

John Ashe, ex-presidente da Assembleia Geral das Nações Unidas

John Ashe, ex-presidente da Assembleia Geral das Nações Unidas

O ex-presidente da Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU), o diplomata John Ashe, de Antigua e Barbuda, no Caribe, foi detido esta terça-feira, em Nova Iorque, sob a acusação de ter recebido mais de um milhão de dólares em subornos para ajudar na realização de empreendimentos imobiliários, revelam documentos ontem divulgados.

As autoridades federais norte-americanas descobriram um sistema que beneficiaria vários empresários de origem chinesa, ainda que nenhum deles pareça ter beneficiado em concreto do esquema, e acusam John Ashe de, entre 2011 e 2014, ter aceitado mais de 1,3 milhões de dólares de um grupo de cinco pessoas, segundo queixa do promotor federal de Manhattan, Preet Bharara.

As acusações vão “ao coração da integridade das Nações Unidas”, segundo o porta-voz da ONU, Stephane Dujarric, que disse ter sabido do caso hoje pela comunicação social e assegurou não ter sido contactado pelo escritório do promotor.

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, afirmou-se “chocado e profundamente perturbado” com as acusações de corrupção que pesam sobre o ex-presidente da Assembleia-geral das Nações Unidas, cargo que é uma função administrativa, diferente do cargo de secretário-geral, que efetivamente preside o órgão.

Quatro dos seis implicados neste caso deviam ser ainda hoje presentes a um juiz federal, estando os restantes dois já detidos.

Ashe, de 61 anos, embaixador de Antígua e Barbuda junto das Nações Unidas, e presidente da 68ª sessão da Assembleia-geral da ONU entre setembro de 2013 e setembro 2014, foi substituído como embaixador em novembro de 2014, após ocupar o cargo por dez anos.

O grupo contou com John Ashe para facilitar a realização do projeto de um centro de conferências patrocinado pela ONU em Macau, orçamentado em milhares de milhões de dólares, bem como projetos imobiliários em Antigua e Barbuda.

Segundo a denúncia, Ashe recebeu várias centenas de milhares de dólares em contas bancárias e diversos benefícios em espécie, incluindo a construção de um campo de basquete na sua propriedade.

Em troca desses benefícios, apresentou ao secretário-geral da ONU um documento com a necessidade de criar um centro de conferências em Macau, projeto que nunca chegou a ser concretizado.

Destinou ainda parte do dinheiro a Baldwin Spencer, então primeiro-ministro de Antígua e Barbuda, para contribuir para o avanço de empreendimentos imobiliários no arquipélago.

Para Preet Bharara, o promotor federal de Manhattan, Ashe “vendeu-se e à organização da qual ele era responsável”, mediante projetos que visam tornar as Nações Unidas numa “plataforma de lucro”.

No caso de Ashe, uma parte do dinheiro foi canalizado através de uma organização não-governamental falsa, na qual o vice-representante da República Dominicana junto das Nações Unidas, Francis Lorenzo, foi presidente honorário, auferindo de um salário mensal de 20 mil dólares.

Além de John Ashe e Francis Lorenzo, as outras quatro pessoas envolvidas nesta caso de corrupção ativa são dois homens de negócios de origem chinesa, a presidente da falsa ONG e a sua diretora financeira.

O principal acusado é um sexagenário de Macau, Ng Lap Seng, que fez fortuna no setor imobiliário e que terá relações políticas e mafiosas na China, tendo sido detido a 19 de setembro nos EUA, na companhia do seu assessor, Jeff C. Yin, sob a acusação de fazer entrar fraudulentamente nos Estados Unidos mais de 4,5 milhões de dólares em dinheiro ao longo de dois anos.

Estes dois detidos foram acusados de mentir às autoridades aduaneiras norte-americanas em relação à finalidade de mais de 4,5 milhões de dólares que levaram para os Estados Unidos desde 2013.

Segundo as conclusões do inquérito da política federal, Ng Lap Seng e o seu colaborador fizeram 11 viagens para os EUA, entre julho de 2013 e setembro de 2015, transportando de cada vez entre 200 mil e 900 mil dólares.

Por exemplo, num dia de julho de 2014, o promotor imobiliário desembarcou em Nova Iorque com uma mala com 400 mil dólares em dinheiro, dizendo aos serviços alfandegários que tencionava utilizar a verba na compra de quadros e em jogo no casino, mas os investigadores do FBI estão convencidos de que Ng Lap Seng mentiu e que a soma tinha outro destino, pois o montante viria a ser transportado numa mala para um encontro com um empresário não identificado no bairro de Queens, em Nova Iorque.

Ng Lap Seng é presidente do grupo Sun Kian Ip, uma corporação privada com sede em Macau que conta com uma fundação em Nova Iorque, e tem uma grande influência política, tanto em Macau, como junto do Governo de Pequim.

Através da fundação e a título pessoal, Ng Lap Seng trabalhou em várias ocasiões com o escritório da ONU para a Cooperação Sul-Sul, dedicado à promoção de acordos económicos e políticos em países em desenvolvimento.

Nos documentos apresentados pela justiça norte-americana contra Ng e Yin, são mencionados 19 milhões de dólares que, até 2010, foram transferidos para os Estados Unidos com destino a particulares ou a entidades.

/Lusa

Deixe o seu comentário

Your email address will not be published.