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Em Arroios, a reciclagem de lixo também recicla vidas

Quatro moradores da freguesia de Arroios, em Lisboa, fazem de lixo industrial peças de ‘design’, num projeto que procura reintegrar socialmente pessoas isoladas ou desempregadas.

O projeto ReMix abriu em setembro esta oficina de Arroios dedicada ao “eco-design“, mas já tinha uma outra no bairro do Armador, em Chelas.

“Esta ideia de eco-design é desenvolvida por população que estava sem qualquer tipo de ocupação, mais isolada, mais desenquadrada da realidade atual, e através destas peças o que se permite é que estas pessoas estejam ocupadas, as pessoas socializam, sentem-se integradas, desenvolvem competências”, referiu Joana Clemente, da Junta de Arroios.

De caixas de fruta, rodas de bicicleta e cabos de guarda-chuva nascem carrinhos de chá, de pratos inutilizados surgem fruteiras e de restos de peles ou esferovite cestos e guarda-joias.

joana.clemente.90 / Facebook

Joana Clemente, responsável pelo projecto na  Junta de Freguesia de Arroios

Joana Clemente, responsável pelo projecto na Junta de Freguesia de Arroios

As peças foram desenhadas por ‘designers’, sobretudo recém-licenciados, que são convidados a imaginar um trabalho que possa ser reproduzido.

O carrinho de chá vai ser brevemente apresentado numa exposição de design de peças únicas em Pequim e está prevista também a inclusão numa outra exposição no Dubai.

No espaço cedido pela freguesia de Arroios fazem-se sobretudo cestos multiusos, guarda-joias de esferovite e reciclam-se cadeiras.

O trabalho é todo manual. Francisco e Jorge cortam tiras de peles, Celeste cola e Maria, a mais nova, entrelaça as tiras para formar pequenos cestos, enquanto explica que “montar o cesto é fácil, desde que as tiras estejam muito direitinhas”.

“Agora, se as tiras estiverem imperfeitas, a trama fica imperfeita. É como a vida”, esclarece.

Os artesãos recebem uma pequena bolsa mensal e uma percentagem de venda das peças, mas nem é isso o que mais interessa a Maria, que, como diz, andava perdida, desempregada, até ser ela própria “reciclada”.

“Eu digo mesmo isso, eu também fui reciclada. Sou tipo um cesto ou uma esferovite. Quem me ouvir dizer isto, diz ‘aquela é maluca!’, mas a doutora [Joana Clemente] sabe, mais do que ninguém, que eu fui mesmo tirada do lixo e levada para o ReMix para reciclar. Estava perdida e a doutora achou-me”, afirmou.

Os produtos são vendidos numa loja do bairro do Armador, através do ‘facebook‘ e na fundação de Serralves, além de cerca de uma dezena de outros pontos espalhados pelo país.

Além deste projeto de “eco-design”, o ReMix tem também a valência de “Eco-serviços” – uma equipa que vai fazer pequenos serviços a casa – e de “eco-teatro”, numa parceria com o Grupo de Teatro Cultural Contra-Senso.

Este programa de promoção social é realizado pela Associação Entremundos, em parceria com a Junta de Freguesia de Marvila e a Junta de Freguesia de Arroios, com o apoio da Câmara Municipal de Lisboa.

/Lusa

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