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Cameron afunda-se nos Panama Papers

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World Economic Forum / Flickr

O primeiro-ministro britânico, David Cameron

O primeiro-ministro britânico, David Cameron

Sob forte pressão pública, o primeiro-ministro britânico, David Cameron, anunciou este domingo a criação de um grupo de trabalho para analisar as informações dos Panama Papers. Pelo meio, também publicou a sua declaração de rendimentos.

Na quinta-feira passada, após vários dias de pressão, o primeiro-ministro admitiu ter detido parte da sociedade offshore do pai até 2010, lucrando com a venda de ações.

Depois de inicialmente declarar que a questão referente à empresa do pai era um “assunto privado”, o líder britânico reconheceu que ele e a mulher venderam as ações da empresa offshore Blairmore Holdings pelo valor de mais de 30 mil libras.

No sábado, Cameron reconheceu que “deveria ter gerido melhor esta história“. “Sei que há ensinamentos a retirar disto e vou aprendê-los. Não culpem Downing Street, ou conselheiros sem nome, culpem-me a mim”, pediu no fórum de primavera dos conservadores.

O primeiro-ministro britânico tornou-se este domingo o primeiro chefe de um Governo do Reino Unido a publicar as declarações de impostos e rendimentos a partir de 2009.

A publicação foi feita para dissipar dúvidas sobre eventuais esquemas, mas o facto de ter recebido 200 mil libras da mãe através de duas transferências bancárias de 100 mil cada em 2011 levantou de imediato novas dúvidas.

As transferências surgiram no ano a seguir à morte do pai de Cameron, dando a entender que foi uma forma de escapar aos impostos sobre herança que seriam cobrados sobre esse dinheiro.

Depois de um fim de semana marcado por manifestações a exigir a demissão de David Cameron, o líder vai hoje ao Parlamento anunciar uma cimeira anti-corrupção para 12 de maio e apresentar o seu plano de combate à evasão fiscal.

Ao longo do fim de semana, milhares de manifestantes estiveram reunidos em frente a Downing Street exigindo a demissão de Cameron por ter lucrado cerca de 30 mil euros com a venda de cinco mil ações da empresa offshore do pai.

Líder das Finanças trabalhou para advogados de offshore do pai de Cameron

Esta segunda-feira, no entanto, surge mais um golpe para o Governo de Cameron: Edward Troup, que lidera as Finanças britânicas, trabalhou para advogados da offshore do pai de Cameron.

De acordo com o jornal britânico Guardian, o diretor dos serviços britânicos de Finanças e Alfândegas (Her Majesty’s Revenue and Customs, HMRC) foi sócio de um escritório de advogados, Simmons & Simmons, que trabalhou para várias empresas citadas no escândalo dos offshores Panama Papers, entre as quais o fundo Blairmore Holdings, de Ian Cameron.

O Guardian ressalva que não há indícios de más práticas por parte de Troup, da firma de advogados ou de clientes seus, e que os documentos que visam o seu nome não indicam que Troup tenha prestado serviços a qualquer empresa registada pela Mossack Fonseca.

A autoridade das alfândegas e impostos também já veio negar qualquer relação direta do seu diretor com a Mossack Fonseca.

Contudo, a sua proximidade a empresas ligadas a offshores reveladas levanta questões de potenciais conflitos de interesses.

O fisco britânico, liderado por Edward Troup, está encarregue do inquérito nacional anunciado por Cameron, que vai investigar eventuais crimes associados a offshores de britânicos.

O grupo de trabalho vai integrar agentes das Finanças e da agência britânica contra o crime (NCA, sigla em inglês), com o apoio do gabinete de luta contra a delinquência financeira (SFO) e a autoridade de conduta financeira (FCA).

Oposição em força

Esta sexta, o líder do Partido Trabalhista, Jeremy Corbyn, afirma que David Cameron “enganou o público sobre o seu envolvimento pessoal em esquemas de evasão fiscal com recurso a offshores”, criados para evadir o fisco”.

“Foram necessárias cinco divagações para admitir que se aproveitou pessoalmente de um fundo de investimentos não declarado em um paraíso fiscal nas Caraíbas”, declarou o trabalhista.

Até então, Corbyn estava a evitar ataques diretos ao adversário, mas a admissão de Cameron fez com que o líder da oposição elevasse o tom. Para Corbyn, o caso não levanta questões apenas sobre a “integridade pessoal” do chefe de governo, mas também evidencia o “fracasso” do seu gabinete em tomar ações contra a evasão fiscal.

Jeremy Corbyn também sugeriu que todos os políticos e outras figuras públicas publicassem as suas declarações de impostos.

O deputado John McDonnell, figura de destaque do partido, acrescentou que não via problema nenhum em criar uma regra que obrigasse todos os ministros a publicar este tipo de informação, cobrando uma explicação do primeiro-ministro à Câmara dos Comuns.

Para o Partido Trabalhista, é uma vergonha nacional que metade das empresas divulgadas nos Panama Papers estejam registadas em paraísos fiscais governados pelo Reino Unido. Na quinta, um deputado trabalhista, John Mann, chegou mesmo a pedir a renúncia de Cameron – posição que ainda não é encampada pelo líder do partido.

Já para Nicola Sturgeon, líder do Partido Nacional Escocês, o chefe de governo deu nos últimos dias a impressão de “querer esconder alguma coisa”.

Além disso, os principais jornais do país, do conservador Daily Telegraph ao progressista The Guardian, criticaram o primeiro-ministro devido ao seu envolvimento no caso, sublinhando a sua “hipocrisia” ao ter condenado como “moralmente erradas” as práticas para tentar iludir o fisco.

Participação em offshore

Os documentos do escritório de advogados panamense Mossack Fonseca, publicados pelo jornal alemão Süddeutsche Zeitung, mencionam, em particular, o falecido pai do primeiro ministro britânico, Ian Cameron, como um dos cinco diretores britânicos da empresa offshore Blairmore Holdings Inc..

Trata-se de um fundo criado pela Mossack Fonseca, especializada em abrir companhias offshore em paraísos fiscais, que entrou em funcionamento em 1982. Oficialmente, o pai do primeiro-ministro apareceu como diretor da offshore apenas em 1989, mas os arquivos do Panamá Papers indicam que este foi crucial para sua formação.

Em julho de 1998, o fundo, que era ligado à filial nas Bahamas do banco francês Société Générale, tinha 20 milhões de dólares em ativos. David Cameron admitiu que chegou a ter cinco mil ações do Blairmore, mas que as vendeu antes de se tornar primeiro-ministro, no início de 2010, por cerca de 30 mil libras esterlinas.

O analista político britânico Harry Carr observou que “esta semana terrível para Cameron arruinou a sua reputação aos olhos da maioria do eleitorado britânico”.

A investigação Panamá Papers publicou milhares de documentos do escritório Mossack Fonseca analisados pelo Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ) e atingiu poderosos de todo o mundo, incluindo políticos, desportistas e empresários.

ZAP / Agência Brasil / SN

1 Comment

  1. Swiss Leaks, Lux leaks, Panama Papers, etc, etc…
    Sempre as mesmas promessas, mas tudo no mesma no “reino dos ricos” que não pagam impostos e ainda tem a lata de “governar” os povos!…

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